08/11/2026
19h53
Pessoa fazendo contas na calculadora do celular ao lado de uma lista de compras, com a Ponte da Amizade ao fundo

Nas compras em Ciudad del Este, o que pesa no seu bolso é a cotação do dólar, não a da moeda paraguaia, isso porque grande parte das mercadorias é vendida em dólar. Por isso, para a maior parte das compras, a queda do guarani muda pouco o valor final em reais.

A regra da Receita Federal também segue igual: quem volta por terra tem cota de isenção de US$ 500 por pessoa, com intervalo de um mês entre um uso e outro, e paga 50% de imposto sobre o que passar disso. O que mudou com a crise foi outra coisa: parte das lojas pode ter dificuldade para receber pagamentos eletrônicos.

Sábado de manhã, fila de carros na Ponte da Amizade. No grupo da família, chega a mensagem: “a moeda do Paraguai caiu 8%, agora compensa ir!“. A lógica parece perfeita: se o dinheiro de lá vale menos, tudo lá deve ter ficado mais barato.

Segundo dados da Bloomberg reproduzidos pelo site Ecosistema Startup, o guarani acumulou queda de 8,2% em cinco dias até 05/11/2026, em meio a uma crise bancária no Paraguai, mas a conclusão do grupo pula uma pergunta básica: em que moeda está a etiqueta do produto que você quer comprar?

Neste guia, você vai entender o que a queda do guarani muda (e o que não muda) nas compras em Ciudad del Este, como fazer a conta em reais antes de atravessar a ponte e quais regras da Receita valem na volta. Ir ou não ir é decisão sua! A ideia aqui é que você decida com a calculadora na mão.

O que aconteceu com o guarani

O guarani perdeu valor rápido no começo de novembro. Pelos dados da Bloomberg, a moeda caiu 4,49% só no dia 05/11/2026 e 8,2% no acumulado de cinco dias. A queda veio junto com a crise bancária que o Paraguai vive desde o início do mês.

Mas câmbio muda todo dia. O percentual da semana da crise não diz quanto o guarani vai valer no dia em que você atravessar a ponte e há um detalhe que pouca gente sabe: O Banco Central do Brasil publica diariamente a cotação oficial de algumas moedas, a chamada PTAX, mas o guarani não está nessa lista. Por isso, não existe uma cotação oficial brasileira que mostre quanto o real “ganhou” do guarani nesta semana. Qualquer número sobre isso vem de casa de câmbio ou de imprensa.

Compras em Ciudad del Este: em que moeda está o preço?

Aqui está o centro da questão, o presidente da Câmara de Empresários de Ciudad del Este e Alto Paraná, Gustavo Fariña, afirma que “grande parte das mercadorias” da cidade é vendida em dólar, enquanto o comprador brasileiro chega com reais.

Quando o preço está em dólar, a queda do guarani não mexe na etiqueta. Um celular que custava US$ 300 antes da crise continua custando US$ 300 depois dela. O que muda o tamanho da sua conta é quantos reais você precisa para comprar cada dólar.

Mito x o que acontece na prática

O que se ouveO que acontece na prática
“A moeda de lá caiu, então tudo ficou mais barato.”Para produtos com preço em dólar, a etiqueta não muda com o guarani. Quem manda na sua conta é o dólar em reais.
“Agora é hora de trazer mais.”A cota da Receita não mudou: US$ 500 por pessoa, por via terrestre. Passou disso, paga 50% sobre o excedente.
“Liquidação por causa da crise é sempre vantagem.”O desconto só existe de verdade se o preço final em reais, com imposto quando houver, for menor que o daqui.
“Vou pagar do jeito de sempre.”Segundo a associação das multilojas paraguaias, duas em cada três operações eletrônicas do setor passavam pelo banco que fechou. A forma de pagamento de sempre pode não estar disponível.

E o que tem preço em guarani?

Lanche, estacionamento, bancas de rua e pequenos serviços costumam ser cobrados em guarani. Em tese, uma moeda local mais fraca poderia deixar esses itens um pouco mais baratos para quem chega com reais.

Na prática, há ressalvas. O comerciante pode reajustar o preço, a cotação que vale é a da casa de câmbio ou da loja (e não a de uma manchete) e, como dito acima, não há cotação oficial brasileira entre real e guarani. Além disso, são gastos pequenos perto de um eletrônico ou de um perfume.

Quanto o dólar mudou na mesma semana

Se o que pesa nas compras em Ciudad del Este é o dólar, vale olhar o que ele fez. A tabela abaixo usa a PTAX de venda, a cotação oficial calculada pelo Banco Central do Brasil.

DataPTAX de venda (R$ por US$)Compra de US$ 100Compra de US$ 500
30/10/2026R$ 5,4212R$ 542,12R$ 2.710,60
06/11/2026R$ 5,5013R$ 550,13R$ 2.750,65
Diferença+ R$ 0,0801 (cerca de 1,5%)+ R$ 8,01+ R$ 40,05
Fonte: Banco Central do Brasil, PTAX (acesso em 08/11/2026). Cálculo do Utua.

Ou seja: pela cotação oficial, quem queria gastar US$ 500 precisou de cerca de R$ 40,00 a mais em 06/11 do que em 30/10, o contrário do que a mensagem do grupo sugeria. Olhando um pouco mais para trás, a PTAX de venda estava em R$ 5,0383 em 23/10/2026. Até 06/11, a alta foi de cerca de 9%.

Dois cuidados com esses números: Primeiro, não dá para atribuir essa alta do dólar à crise do Paraguai: o dólar oscila por muitos motivos, dentro e fora do Brasil. Segundo, a PTAX é só uma referência. Casa de câmbio, loja e cartão usam cotações próprias e podem cobrar custos extras.

Se quiser entender o peso desses custos, o Utua explica em compra internacional no cartão: 4 jeitos de pagar menos. E, para ver como o dólar mexe com o resto do orçamento, leia alta do dólar: quanto sobe sua fatura e o que fica mais caro.

Cota de isenção por terra: US$ 500 por pessoa, a cada intervalo de um mês

Esta parte não mudou com a crise, e é a que mais pesa na volta das compras em Ciudad del Este. Pela Portaria MF 440/2010, quem entra no Brasil por via terrestre, fluvial ou lacustre pode trazer até US$ 500 em compras sem pagar imposto. Quem chega de avião ou navio tem cota de US$ 1.000.

A cota é individual e intransferível. A Receita diz que não é possível somar cotas, “ainda que entre familiares”. Então, se um casal volta com uma TV de US$ 900, não dá para “dividir” a TV entre os dois.

Ela também tem prazo. A Portaria MF 440/2010 e a Instrução Normativa RFB 1.059/2010 dizem que a isenção só pode ser usada uma vez a cada intervalo de um mês. A página da Receita sobre bens a declarar explica que esse mês conta a partir da chegada da última viagem internacional, mesmo que você não tenha gastado a cota toda nem pagado imposto.

Objetos de uso pessoal que você levou e trouxe de volta, como a roupa do corpo ou o celular que já era seu, não entram na conta. Para isso, a Receita exige que o bem seja de uso próprio, esteja usado e seja compatível com a viagem. Produto novo, comprado lá, entra na cota.

Um ponto que costuma confundir quem mora na fronteira: a Receita prevê uma cota adicional de US$ 500 a cada 30 dias para compras nas lojas francas terrestres, os free shops do lado brasileiro. Ela vale só para essas lojas. O que você compra no Paraguai continua dentro dos US$ 500 da bagagem.

Limites de quantidade para quem volta por terra

Além do valor, há limites de quantidade. Mesmo dentro dos US$ 500, as compras em Ciudad del Este não podem ter qualquer volume. Os limites abaixo estão na página da Receita para via terrestre, fluvial ou lacustre.

Tipo de produtoLimite por pessoa
Bebidas alcoólicas12 litros no total
Cigarros de fabricação estrangeira10 maços de 20 unidades
Charutos ou cigarrilhas25 unidades
Fumo250 gramas
Outros bens de menos de US$ 5 cada20 unidades, no máximo 10 iguais
Outros bens de mais de US$ 5 cada10 unidades, no máximo 3 iguais
Fonte: Receita Federal, “Isenções, cotas, limites quantitativos e free shop” (atualizada em 27/01/2026, acesso em 08/11/2026) e IN RFB 1.059/2010, art. 33.

Passar desses limites tem consequência. Pela IN RFB 1.059/2010, os bens acima dos limites de quantidade pagam o imposto de 50% sem direito à isenção. Bebidas, cigarros, charutos e fumo acima do limite saem da regra de bagagem e vão para o regime comum de importação, que segue outras regras.

Bebidas alcoólicas e produtos de tabaco não podem fazer parte da bagagem de crianças e adolescentes, mesmo acompanhados, e a cota é para uso pessoal: compra com cara de revenda não é tratada como bagagem.

Passou da cota? Imposto, multa e o que acontece

Quem passa dos US$ 500 precisa fazer a declaração pela e-DBV, a Declaração Eletrônica de Bens de Viajante, e o viajante escolhe o canal “bens a declarar” na chegada. Onde não existe esse canal, a Receita orienta procurar a fiscalização e apresentar a declaração antes de qualquer procedimento de fiscalização.

O imposto é de 50% sobre o valor que excede a cota. O próprio sistema calcula o valor, usando a taxa de câmbio da data em que você transmite a declaração, e o pagamento pode ser feito por DARF ou Pix.

E se a pessoa passa pelo “nada a declarar” com compras acima da cota? A lei trata isso como declaração falsa e a punição é uma multa de 50% do valor que passou do limite, “sem prejuízo do pagamento do imposto devido”, como prevê a Lei 9.532/1997. Em português claro: a multa vem somada ao imposto, não no lugar dele.

A mesma multa vale para quem declara, mas informa um valor menor do que o real. Nesse caso, a Receita cobra a diferença do imposto mais a multa por declaração inexata, também de 50% do valor que passou da cota.

Veja um exemplo com números redondos de uma pessoa hipotética que voltou por terra com US$ 700 em compras.

SituaçãoEm dólarEm reais (PTAX de 06/11/2026, só como referência)
Total das comprasUS$ 700R$ 3.850,91
Cota de isençãoUS$ 500–
Valor que passou da cotaUS$ 200R$ 1.100,26
Declarou no canal “bens a declarar”: imposto de 50%US$ 100R$ 550,13
Passou pelo “nada a declarar” e foi fiscalizada: imposto de 50% + multa de 50%US$ 100 + US$ 100 = US$ 200R$ 1.100,26
Exemplo ilustrativo. O valor real depende do câmbio usado pela Receita. Fonte das regras: Portaria MF 440/2010, IN RFB 1.059/2010, Lei 9.532/1997 e Receita Federal (acesso em 08/11/2026). Cálculo do Utua.

Repare: no exemplo, quem não declara paga o dobro de quem declara. Por isso a cota precisa entrar na conta antes da viagem, e não na fila da aduana.

O que a crise muda de verdade nas compras em Ciudad del Este

Se a etiqueta em dólar não mudou, o que mudou? Principalmente a parte prática da compra.

Pagamento. O Ueno Bank, banco digital paraguaio, está sob intervenção do Banco Central do Paraguai desde. Segundo a Asimcopar, associação das multilojas paraguaias, duas em cada três operações eletrônicas do setor passavam por contas desse banco. Com isso, parte das lojas pode ter dificuldade para receber por meios eletrônicos. Vale perguntar antes quais formas de pagamento a loja está aceitando naquele dia.

Trocas e garantia. A Fedemipymes, federação das micro e pequenas empresas paraguaias, estimou que a paralisação desses negócios pode durar de 15 a 30 dias. Troca e garantia de um produto comprado lá dependem da loja de lá. Pergunte como funciona antes de pagar e guarde a nota: ela também é o documento que a Receita usa para saber o valor da compra.

Preços e oferta. Mudança de preço ou falta de produtos só deve chegar ao consumidor se as dificuldades se prolongarem.

O impulso. Manchete de crise junto com placa de “liquidação” é uma combinação poderosa. A sensação de “oportunidade única” faz a gente comprar o que não estava na lista. Se isso costuma acontecer com você, o texto sobre culpa de gastar dinheiro ajuda a entender o que está por trás desse comportamento.

Alerta de golpe: desconfie de anúncios em redes sociais ou no WhatsApp que usem a crise no Paraguai para oferecer “estoque de liquidação” com pagamento antecipado por Pix e entrega no Brasil. Confira se a empresa existe, procure reclamações e não pague adiantado a quem você não consegue identificar.

Como fazer a conta em reais antes de atravessar a ponte

Este passo a passo leva ao número que interessa nas compras em Ciudad del Este: quanto a compra vai custar no seu bolso, em reais, com tudo incluído.

  1. Faça a lista do que quer comprar e anote o preço de cada item no Brasil, já com frete, se for compra pela internet.
  2. Anote o preço em dólar de cada item no Paraguai e some tudo.
  3. Converta para reais com a cotação que você vai usar de fato (da casa de câmbio, da loja ou do cartão). A PTAX serve só como referência.
  4. Compare o total com a cota de US$ 500 por pessoa e com os limites de quantidade. Se passar do valor, calcule 50% sobre o que exceder e some ao total.
  5. Some os custos da viagem: combustível, estacionamento, pedágio, alimentação.
  6. Compare o total final com o preço no Brasil e pense no que pesa além do preço, como troca e garantia.
  7. Defina um teto antes de sair de casa. Se for usar o cartão de crédito, veja em que fatura a compra vai cair. O texto sobre a melhor data para pagar contas ajuda a encaixar esse gasto no mês.

Veja um exemplo com valores fictícios, para uma pessoa:

Item da contaValor
Compras no Paraguai: US$ 560 × R$ 5,5013 (PTAX de 06/11/2026)R$ 3.080,73
Imposto: 50% de US$ 60 (o que passou da cota), declarado na e-DBVR$ 165,04
Custos da viagem (combustível, estacionamento, lanche)R$ 150,00 (fictício)
Total para trazer as comprasR$ 3.395,77
Mesmos itens comprados no BrasilR$ 3.450,00 (fictício)
DiferençaR$ 54,23
Exemplo ilustrativo. A cotação usada na loja, na casa de câmbio ou no cartão costuma ser diferente da PTAX.

No exemplo, a diferença existe, mas é pequena perto do valor total. Com uma cotação um pouco pior na casa de câmbio, ela pode sumir. Em outro caso, com outros produtos, pode ser maior. É por isso que a conta precisa ser feita com os seus números.

Perguntas frequentes sobre compras em Ciudad del Este

A queda do guarani deixou os eletrônicos mais baratos?

Para quem paga em reais, em geral não. Segundo comerciantes ouvidos pela imprensa paraguaia, grande parte das mercadorias de Ciudad del Este é vendida em dólar, e a etiqueta em dólar não muda com o guarani. O que pesa é a cotação do dólar em reais, que, pela PTAX de venda, subiu cerca de 1,5% entre 30/10 e 06/11/2026.

A cota de US$ 500 pode ser somada entre pessoas da família?

Não. A Receita Federal informa que a cota é individual e intransferível e que não é possível somar cotas, mesmo entre familiares. Cada viajante tem a sua, para os bens que ele mesmo traz.

Posso usar a cota de isenção duas vezes no mesmo mês?

Não. A isenção só pode ser usada uma vez a cada intervalo de um mês, contado da chegada da última viagem internacional (uma das páginas da Receita fala em 30 dias). Vale mesmo que você não tenha usado o valor inteiro na viagem anterior.

Preciso declarar se ficar dentro dos US$ 500?

Se as compras estão dentro da cota e dos limites de quantidade, não há imposto. Mas alguns itens exigem o canal “bens a declarar” mesmo dentro do valor, como bens acima dos limites de quantidade, dinheiro em espécie acima de US$ 10 mil e produtos sob controle sanitário ou agropecuário. A IN RFB 1.059/2010 inclui nessa lista alimentos, medicamentos, vitaminas e suplementos, com exceção dos de uso pessoal.

O que acontece se eu passar da cota e não declarar?

A Receita trata como declaração falsa. Você paga o imposto de 50% sobre o que passou da cota e, além dele, uma multa de 50% sobre esse mesmo valor (IN RFB 1.059/2010, art. 6º, § 3º, e Lei 9.532/1997, art. 57). Na prática, o custo dobra em relação a quem declara.

Qual cotação a Receita usa para calcular o imposto?

A taxa de câmbio da data em que a e-DBV é transmitida, segundo a Receita Federal. O próprio sistema calcula o valor e emite a guia para pagamento por DARF ou Pix. A página da Receita ressalva que a regra é outra em caso de declaração inexata.

Compras em Ciudad del Este: a conta em reais vem antes da ponte

A queda do guarani virou manchete, mas, para a maior parte das compras em Ciudad del Este, quem decide o preço em reais é o dólar. A regra da volta continua a mesma: US$ 500 por pessoa por via terrestre, a cada intervalo de um mês, e 50% de imposto sobre o excedente. Sem declarar, ainda entra a multa de 50%. O que a crise trouxe de novo foi a incerteza no pagamento eletrônico e nas trocas.

Antes de entrar na fila da ponte, faça a lista, converta pela cotação real, aplique a cota e compare com o preço daqui. Se o resultado fizer sentido para o seu orçamento, você decide com os números na mão. Se não fizer, você economizou a viagem. E, se o dinheiro das compras de fim de ano viria do 13º, confira antes quanto do 13º salário de 2026 cai na sua conta.


Fontes consultadas:

Acesso em 08/11/2026. Fontes oficiais primeiro; depois, imprensa.

Sobre o Autor

Paula Gargiulo
Paula Gargiulo

Jornalista especializado em Jornalismo Digital, com experiência em SEO, redação web, marketing de conteúdo e estratégias de conteúdo baseadas em dados. Ela é responsável pela estratégia editorial, produção de conteúdo e padrões de qualidade da UTUA, garantindo precisão, consistência, clareza e alinhamento com os padrões de comunicação editorial e financeira em todos os materiais publicados. Desde 2020, ela contribuiu com mais de 20.000 peças de conteúdo em mais de 60 países.