A dívida no cartão de crédito voltou a puxar o indicador de famílias endividadas no Brasil, que chegou a 82% em julho de 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o sexto recorde mensal seguido nessa série histórica. É o pior nível já registrado desde o início da pesquisa, em 2010.
Curiosamente, esse novo recorde veio acompanhado de uma notícia que passou quase despercebida. A inadimplência, ou seja, o atraso no pagamento das contas, caiu de 29,9% para 29,8% no mesmo período. Isso mostra que o problema não é deixar de pagar as dívidas, é continuar pagando, mas cada vez mais dependente do crédito para fechar as contas do mês.
Esses dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), levantamento mensal da CNC feito desde 2010 com cerca de 18 mil consumidores em todas as capitais e no Distrito Federal. A abrangência da amostra é o que dá peso ao retrato traçado sobre o peso da dívida no cartão de crédito no orçamento das famílias.
Por que a dívida no cartão de crédito lidera o endividamento
Mais de 85% das famílias endividadas têm a dívida no cartão de crédito como principal responsável pelo total devido, aponta a mesma pesquisa da CNC. Esse dado ajuda a entender por que o indicador de endividamento segue subindo mês após mês, mesmo sem uma crise visível no orçamento doméstico.
O cartão, que deveria funcionar como reserva para emergências ou compras pontuais, tem se tornado uma extensão do orçamento mensal. Ele passa a cobrir despesas recorrentes, como supermercado, contas de consumo e combustível, e é assim que a dívida no cartão de crédito cresce sem que a família perceba uma mudança brusca no dia a dia.
O que o comprometimento de renda revela
Segundo a CNC, as famílias comprometem em média 29,5% da renda com dívidas, por um período médio de 7,2 meses, ligeiramente acima dos 7,1 meses registrados um ano antes. Esse número mostra que o crédito deixou de ser um recurso pontual e passou a ocupar um espaço fixo no orçamento doméstico.
Esse comprometimento reduz a margem para lidar com qualquer imprevisto, como uma perda de renda, um gasto médico ou o conserto de um eletrodoméstico. Quanto maior a fatia da renda já destinada a pagar a dívida no cartão de crédito, menor o espaço para reagir a uma emergência sem recorrer a ainda mais crédito.
Quem sente mais esse peso no orçamento
As famílias com renda de até três salários mínimos são as mais afetadas, com 84,9% relatando algum tipo de dívida, segundo a Peic. Esse número está mais associado à estrutura da renda do que a uma suposta falta de organização financeira.
Quando o orçamento já é apertado, qualquer valor comprometido com dívidas pesa proporcionalmente mais. A dívida no cartão de crédito tende a pesar ainda mais nesse grupo, um retrato da desigualdade de renda refletido nos números da pesquisa, não um problema de comportamento individual.
Sinais de que o crédito virou parte do orçamento
Como o endividamento nem sempre aparece como uma crise evidente, alguns sinais ajudam a identificar o padrão antes que ele se intensifique. Usar o limite do cartão para cobrir despesas fixas recorrentes, e não apenas imprevistos, costuma ser um dos primeiros indícios de que a dívida no cartão de crédito está ocupando um espaço permanente no orçamento.
Outros sinais também valem atenção: não conseguir quitar a fatura total por vários meses seguidos, perceber que o percentual da renda comprometida com dívidas está subindo mês a mês, e recorrer ao cartão logo nos primeiros dias após o pagamento do salário. Nenhum desses sinais indica, isoladamente, uma crise, mas juntos ajudam a enxergar o padrão de dependência do crédito.
O corte recente da Selic, tende a aliviar o custo do crédito a médio prazo, mas não muda o quadro de imediato. Observar esses sinais, mais do que reagir apenas quando a fatura atrasa, ajuda a entender melhor a relação com a dívida no cartão de crédito no dia a dia. O recorde de famílias endividadas em 2026 mostra, sobretudo, que estar em dia com as contas nem sempre significa estar livre dessa dependência.