29/09/2026
14h46
pessoa olhando notícias no celular e sentindo ansiedade financeira

A ansiedade financeira não aparece em nenhum índice, mas cresce junto com eles: a confiança do consumidor medida pela FGV caiu para 84,2 pontos em setembro, a quinta queda seguida e o menor nível desde novembro de 2022. Já o termômetro das expectativas para os próximos meses caiu a 85,2 pontos, o pior resultado desde maio de 2022.

Some a isso uma prévia da inflação acima do esperado e a reta final da eleição, e o celular vira uma torneira de manchete ruim. Com medo do futuro, a gente decide pior — e é sobre essas decisões, não sobre o noticiário, que vale conversar.

Congelar ou comprar logo: dois reflexos do mesmo medo

Diante de notícias ruins, muita gente trava: para de abrir o app do banco, abandona a planilha que tinha acabado de começar e repete que “não adianta nada com o país assim”. Outras pessoas fazem o movimento contrário e antecipam gastos com o argumento de que “vai ficar mais caro, melhor comprar logo”, e a geladeira nova entra no carrinho, parcelada, antes da hora.

Parecem atitudes opostas, mas nascem do mesmo lugar, porque as duas tentam aliviar o desconforto da incerteza — uma fugindo do assunto, a outra fazendo qualquer coisa para sentir que tem o controle. Nenhuma delas é fraqueza ou irresponsabilidade: é a ansiedade financeira, aquela preocupação constante com dinheiro que aparece até em quem está com as contas em dia, tomando a decisão no seu lugar.

O que é do país e o que é da sua casa

A prévia da inflação oficial, o IPCA-15, subiu 0,70% em setembro, puxada principalmente pela conta de luz, que ficou 7,42% mais cara com o fim do bônus de Itaipu, segundo o IBGE. Você não controla o preço do tomate nem a taxa de juros, mas controla a lista do mercado, a data em que paga cada boleto e o que decide parcelar — e é nesse pedaço que a ansiedade financeira começa a perder força.

Muita gente sente alívio ao trocar a pergunta “o que vai acontecer com o Brasil?” por “quanto eu preciso para fechar outubro?”. A primeira não tem resposta em lugar nenhum; a segunda cabe numa folha de papel, com o salário de um lado e o aluguel, a luz, o mercado e as parcelas do outro.

Ansiedade financeira na hora de decidir: 3 perguntas

Quando a ansiedade financeira bater antes de uma decisão com dinheiro, faça estas três perguntas, de preferência longe da tela que acabou de mostrar a notícia ruim:

  1. Isso é urgente ou é ansiedade? Se a decisão pode esperar uma semana sem nenhum prejuízo concreto, ela não é urgente — quem está com pressa é o medo.
  2. Se o cenário piorar, essa decisão me protege ou me expõe? Uma TV de R$ 3.000,00 em 12 parcelas de R$ 250,00 compromete o orçamento do próximo ano inteiro justamente quando o futuro parece mais incerto.
  3. Se o cenário melhorar, eu me arrependo? Abandonar o controle de gastos ou parar de guardar dinheiro por desânimo costuma pesar mais quando a poeira baixa e o plano precisa recomeçar do zero.

Um plano pequeno para meses de ansiedade financeira

Mês nervoso não pede plano grandioso: contra a ansiedade financeira, três cuidados que cabem em qualquer orçamento valem mais do que qualquer previsão.

O primeiro é deixar as contas essenciais em dia antes de tudo, porque aluguel, luz, água, mercado e parcelas vêm antes de qualquer outra despesa, e um boleto de R$ 300,00 atrasado costuma ganhar multa de 2% e juros de 1% ao mês, R$ 9,00 a mais só no primeiro mês.

O segundo é mandar as compras grandes que não são necessárias para uma lista com data: anote o item e o preço e só volte a pensar nele daqui a 30 dias. Você não está sozinho nessa cautela, já que o indicador de compras previstas de bens duráveis, como eletrodomésticos e móveis, foi o que mais caiu entre as expectativas medidas pela FGV, 2,4 pontos.

O terceiro é separar um valor para imprevistos, por menor que seja: R$ 20,00 separados toda semana viram R$ 1.040,00 em um ano, o suficiente para cobrir um conserto ou um remédio sem recorrer ao cartão.

O que, no meu dinheiro, depende de mim este mês?

Da próxima vez que der de cara com mais uma manchete ruim, antes de fechar o app do banco ou de abrir o da loja, faça essa pergunta e escolha uma única resposta para cumprir ainda esta semana. Pode ser pagar a conta de luz antes do vencimento, cancelar aquela assinatura de R$ 39,90 esquecida (quase R$ 480,00 no ano) ou agendar hoje uma transferência automática de R$ 20,00 toda sexta-feira para uma conta separada.

Nenhuma dessas escolhas muda o noticiário, mas todas mudam a sua semana, e é assim, uma decisão de cada vez, que a ansiedade financeira vai dando lugar a uma sensação que o jornal não entrega: a de que alguma coisa, sim, está sob o seu controle.

E se a preocupação com dinheiro estiver tirando o seu sono há semanas, vale conversar com alguém de confiança ou procurar a unidade de saúde perto de casa, porque ansiedade também é assunto de saúde, combinado?

Sobre o Autor

Paula Gargiulo
Paula Gargiulo

Jornalista especializado em Jornalismo Digital, com experiência em SEO, redação web, marketing de conteúdo e estratégias de conteúdo baseadas em dados. Ela é responsável pela estratégia editorial, produção de conteúdo e padrões de qualidade da UTUA, garantindo precisão, consistência, clareza e alinhamento com os padrões de comunicação editorial e financeira em todos os materiais publicados. Desde 2020, ela contribuiu com mais de 20.000 peças de conteúdo em mais de 60 países.