25/06/2026
18h08
Ano eleitoral

Em um ano eleitoral, o mercado financeiro brasileiro entra em modo de atenção redobrada. Não é exagero: os ciclos eleitorais têm padrões históricos bem documentados que afetam juros, câmbio, bolsa e, no fim das contas, o seu bolso, independentemente de quem vença as urnas.

Entender esses padrões não significa fazer apostas políticas. Significa reconhecer como o calendário eleitoral cria um ambiente específico para tomar decisões financeiras com mais consciência. Ignorar esse contexto pode levar a escolhas impulsivas, como resgatar investimentos no pior momento ou concentrar vencimentos justamente quando o mercado está mais instável.

O padrão histórico que se repete

Nos ciclos de 2018 e 2022, o mercado brasileiro seguiu um roteiro conhecido: maior volatilidade cambial no segundo semestre, com picos entre julho e outubro. A bolsa, por sua vez, costuma antecipar o resultado eleitoral com meses de antecedência, reagindo às percepções sobre continuidade ou mudança de política econômica antes mesmo das urnas falarem.

Há outro padrão relevante: em anos eleitorais, o aumento dos gastos públicos tende a pressionar a inflação e dificultar cortes de juros mais rápidos. Com a Selic hoje em 14,25% ao ano e o mercado projetando encerramento de 2026 entre 12,5% e 13%, esse carrego ainda elevado da renda fixa, típico de um ano eleitoral, pode durar mais do que o inicialmente projetado.

O que pode mudar de fato no seu bolso

Na renda fixa, a boa notícia é que juros ainda altos significam retornos atrativos sem grande risco. O ponto de atenção é que a trajetória de cortes pode ser mais lenta do que o esperado, dependendo do comportamento fiscal e inflacionário ao longo do segundo semestre.

No câmbio, a volatilidade em um ano eleitoral tende a ser maior entre julho e outubro, com investidores precificando o risco político. Quem tem exposição nenhuma a ativos dolarizados pode considerar se isso faz sentido para o próprio perfil. Na bolsa, setores ligados ao consumo interno historicamente se beneficiam do estímulo pré-eleitoral, enquanto concessões e utilidades tendem a ser mais sensíveis à incerteza regulatória.

O que é só promessa e o que tem impacto real

Todo ano eleitoral traz promessas de corte de impostos, reajuste de benefícios, controle de preços e reformas estruturais. O investidor intermediário precisa aprender a separar o que já está aprovado em lei, que tem impacto certo, do que está em campanha, que tem impacto incerto e muitas vezes não se concretiza da forma anunciada.

A regra prática é direta: não tome decisões de portfólio baseadas em promessas eleitorais. Cenários de política econômica podem se concretizar ou não. O que você pode controlar é a estrutura da sua carteira diante de diferentes resultados possíveis.

Como posicionar a carteira para o segundo semestre

Evite concentrar vencimentos de renda fixa em outubro e novembro. Manter liquidez nesse período permite aproveitar eventuais oportunidades que surgem com a definição do resultado eleitoral. Se sua exposição a ativos internacionais estiver abaixo de 10% a 15% da carteira, vale avaliar se aumentá-la faz sentido para o seu perfil e objetivo.

Na renda variável, empresas com receita em moeda estrangeira ou com histórico consistente de dividendos tendem a ser mais resilientes em períodos de incerteza política. Outra orientação relevante para o ano eleitoral é evitar alavancagem: volatilidade eleitoral é o ambiente mais arriscado para posições que ampliam perdas.

O que acompanhar até outubro

Em um ano eleitoral, alguns sinais merecem atenção semana a semana: o comportamento do câmbio e da bolsa diante das pesquisas eleitorais, o ritmo de gastos públicos no segundo semestre e as declarações do Copom em agosto e setembro sobre a trajetória da Selic. Vale lembrar que o Copom não pausa suas decisões por conta das eleições, mas o contexto fiscal influencia diretamente o raciocínio do comitê.

O ano eleitoral cria ruído, mas também cria oportunidades para quem mantém a cabeça fria. Carteiras bem diversificadas, com liquidez adequada e sem apostas em promessas de campanha, têm muito mais chance de atravessar o segundo semestre sem sustos desnecessários.

Sobre o Autor

Mariana Murta
Mariana Murta

Atua desde 2022 como analista de conteúdo do Utua. Já escreveu mais de 2.400 textos para diversos países, explorando diferentes culturas e estilos de comunicação.