22/09/2026
16h59
Apostas online

Em setembro de 2026, a Forbes Brasil repercutiu um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), feito em parceria com a Frente Parlamentar da Saúde Mental e a Umane e lançado em dezembro de 2025. Segundo o levantamento, os danos à saúde associados às apostas online geram um custo de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano à sociedade brasileira. Na conta entram as mortes por suicídio, a perda de qualidade de vida causada pela depressão e o tratamento médico dessa doença.

Entender como esse número é construído e qual é o caminho que leva do hábito de apostas online à sobrecarga do sistema de saúde é o que este texto propõe. O objetivo é informar o mecanismo, sem tomar posição sobre regulação ou tributação e sem usar os dados para gerar alarme.

Como apostas online chegam ao sistema de saúde?

A ligação entre apostas online e saúde pública não é imediata nem sempre visível. Ela se forma ao longo do tempo, quando o hábito se torna frequente e o controle começa a ceder. O estresse financeiro causado por perdas recorrentes é um dos principais gatilhos do processo: dívidas, inadimplência e a sensação de perda de controle sobre o dinheiro são fatores conhecidos no desenvolvimento de quadros de ansiedade e depressão.

Quando esses quadros não são tratados na fase inicial, a demanda sobre o sistema de saúde aumenta. Consultas, medicamentos, internações e atendimentos em serviços de atenção psicossocial entram nessa conta. O transtorno do jogo, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como doença na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), exige acompanhamento especializado, que o SUS oferece de graça.

O que compõe os R$ 30,6 bilhões?

O estudo do IEPS divide o valor em três partes. A maior delas, cerca de R$ 17 bilhões, corresponde às mortes por suicídio associadas ao jogo. Outros R$ 10,4 bilhões medem a perda de qualidade de vida de quem desenvolve depressão, e R$ 3 bilhões vêm do tratamento médico dessa doença. Somados a custos fora da saúde, como perda de moradia, seguro-desemprego e encarceramento, os prejuízos sociais das apostas online chegam a R$ 38,8 bilhões por ano.

O ponto de partida é o Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, feito pela Unifesp entre 2022 e 2023. A partir dele, o estudo estima que cerca de 1,4 milhão de brasileiros já se enquadrariam nos critérios de transtorno do jogo. Sobre essa base, os pesquisadores aplicaram a metodologia de custos usada pelo governo do Reino Unido, ajustada ao poder de compra do Brasil. Por isso, o próprio IEPS trata o resultado como um piso: danos a relacionamentos, perdas financeiras diretas e efeitos sobre a geração seguinte ficaram de fora da conta.

Uma conta que recai sobre todos

No Brasil, grande parte do tratamento de saúde mental é absorvida pelo sistema público, por meio de serviços como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Esses serviços atendem condições que vão da ansiedade ao transtorno do jogo, e sua capacidade de resposta depende diretamente dos recursos disponíveis. Quando a demanda cresce de forma expressiva, o atendimento a toda a população acaba sendo afetado.

Isso significa que o impacto das apostas online na saúde pública não é restrito a quem aposta. Uma parte é pressão direta sobre um sistema compartilhado, financiado coletivamente. A outra, a maior, é medida em vidas e em bem-estar, e seu peso se espalha por famílias e comunidades. Por isso os R$ 30,6 bilhões não são uma despesa do SUS, e sim uma estimativa do quanto o conjunto da sociedade perde.

O que os dados revelam sobre um fenômeno recente

As apostas online cresceram de forma acelerada no Brasil nos últimos anos, e os dados de saúde pública ainda estão sendo mapeados com alguma defasagem em relação ao ritmo do fenômeno. Segundo o Ministério da Saúde, a procura por atendimento no SUS por dependência de apostas e jogos de azar cresceu 140% em cinco anos. O estudo do IEPS é um dos primeiros esforços sistemáticos de mensuração desse impacto no país, e a metodologia tende a ser refinada à medida que mais informações se tornem disponíveis.

O que os dados já deixam claro é que apostas online, quando se tornam um hábito frequente e sem controle, geram consequências que vão além do orçamento individual e chegam ao sistema de saúde de forma mensurável. Entender esse mecanismo com base em evidências é o primeiro passo para qualquer pessoa que queira ir além da manchete, e é exatamente esse tipo de informação que o Clube Utua reúne.

Se você ou alguém próximo sente que perdeu o controle sobre as apostas, dá para buscar ajuda sem custo. O SUS atende nas Unidades Básicas de Saúde, nos CAPS e por teleatendimento no Meu SUS Digital. O CVV conversa de graça, a qualquer hora, pelo telefone 188.

Sobre o Autor

Mariana Murta
Mariana Murta

Atua desde 2022 como analista de conteúdo do Utua. Já escreveu mais de 2.400 textos para diversos países, explorando diferentes culturas e estilos de comunicação.