Assumir a gerência, virar coordenador, chegar à diretoria: por muito tempo, isso era tratado quase como destino natural de quem crescia na carreira. Só que um levantamento recente da consultoria Deloitte mostra que essa lógica está mudando, e os jovens têm cada vez menos pressa para ocupar cargos de liderança.
O que a pesquisa da Deloitte revela?
Realizado com quase 23 mil participantes em 44 países – dos quais 804 são brasileiros, entre geração Z e millennials -, o levantamento é a 15ª edição da pesquisa Gen Z and Millennial Survey, da Deloitte. O dado que chamou atenção: apenas 6% da geração Z e 8% dos millennials colocam ocupar cargos de liderança como prioridade número um na carreira agora.
Isso não quer dizer que o interesse tenha desaparecido. Pelo contrário: 69% da geração Z e 74% dos millennials dizem que pretendem, sim, assumir cargos de liderança em algum momento da vida profissional. O que muda é o “quando”, não necessariamente o “se”.
O que motiva essa mudança?
Segundo a pesquisa, mais da metade dos jovens brasileiros colocou algum projeto profissional em segundo plano por causa do momento financeiro: são 55% na geração Z e 52% entre os millennials. Ou seja, a pressão econômica está fazendo os jovens priorizarem estabilidade no curto prazo, em vez de correr atrás de cargos de liderança que, na visão deles, trazem mais responsabilidade e mais desgaste antes de trazer segurança real.
Faz sentido: cargos de liderança costumam vir empacotados com jornadas mais longas, cobrança maior de resultado e, em muitos casos, decisões difíceis sobre times inteiros. Numa época de custo de vida alto e mercado de trabalho instável, trocar isso por um cargo mais previsível pode parecer, para muita gente, uma escolha mais segura.
De onde vem esse movimento?
Esse movimento de recusa, ou pelo menos de adiamento, de cargos de liderança começou a ganhar força depois da pandemia, quando muita gente repensou prioridades depois de anos de rotina exaustiva e incerteza. Termos como “ambição silenciosa” e “unbossing consciente” passaram a descrever esse comportamento: seguir entregando um bom trabalho, sem necessariamente buscar o próximo cargo de chefia.
Esse comportamento também reflete o que essas gerações viram os pais e chefes mais velhos viverem: jornadas longas, poucas férias e um sacrifício pessoal que nem sempre trouxe o retorno financeiro ou emocional esperado. Diante disso, muitos jovens preferem negociar melhor as condições antes de aceitar cargos de liderança, em vez de simplesmente correr atrás do próximo título por status.
Os benefícios de assumir cargos de liderança
Vale lembrar que cargos de liderança também trazem vantagens concretas, e a financeira é uma das mais óbvias. Em geral, esses cargos vêm com salário mais alto, bônus por resultado e benefícios adicionais, o que impacta diretamente sua capacidade de poupar, investir e alcançar metas financeiras mais rápido.
Além do salário, cargos de liderança costumam abrir portas para uma rede de contatos maior, mais visibilidade dentro e fora da empresa, e experiência que conta bastante em uma eventual mudança de carreira. No médio e longo prazo, essa combinação pode significar mais oportunidades e mais poder de negociação salarial.
Existem riscos ao recusar essas oportunidades?
Por outro lado, recusar cargos de liderança sistematicamente também tem um lado de atenção. Segurar a carreira no mesmo nível por muito tempo pode significar perder o timing de aumentos salariais maiores, já que promoções costumam ser um dos jeitos mais rápidos de subir de faixa de renda dentro de uma empresa.
Ao mesmo tempo, dizer não a cargos de liderança no momento errado, ou pelos motivos errados, também pode ser uma decisão acertada quando protege sua saúde mental, sua vida pessoal ou o equilíbrio financeiro da família.
A pesquisa da Deloitte mostra que a maioria dos jovens não quer carreira acelerada: só 1 em cada 4 da geração Z (25%) e cerca de 1 em cada 5 millennials (21%) dizem preferir subir de cargo rapidamente. O restante prefere um crescimento mais gradual ou topa até mudanças laterais para ganhar experiência.
O que isso significa para o planejamento financeiro?
Independentemente de você querer ou não cargos de liderança agora, vale separar essa decisão de carreira do seu planejamento financeiro. Construir uma reserva de emergência, investir com constância e entender seu perfil de gastos são passos que valem tanto para quem está subindo rápido na hierarquia quanto para quem prefere um ritmo mais tranquilo.
O importante é que a escolha sobre cargos de liderança seja feita com informação e propósito, e não só pelo medo da pressão financeira do momento. Se puder, avalie o cargo pelo pacote completo: salário, benefícios, qualidade de vida e o que ele representa para os seus objetivos de longo prazo, dentro e fora do trabalho.