20/10/2026
15h22
Cheque especial e rotativo

Cheque especial e rotativo são linhas de crédito que muita gente associa a quem está no limite do orçamento. Um levantamento feito a partir de dados do Sistema de Informações de Crédito (SCR), base do Banco Central, mostra um movimento que contradiz essa leitura: a participação de famílias de renda mais alta no saldo dessas modalidades cresceu de forma expressiva entre julho de 2023 e julho de 2026.

O dado que vai contra o esperado

Quem ganha acima de 20 salários mínimos passou de 5,3% para 10,5% do saldo total de cheque especial e rotativo nesse período. O grupo com renda acima de 10 salários foi de 13,1% para 23,3%, com saldo de R$ 30,3 bilhões e crescimento de 93% acima da inflação em três anos.

No outro extremo, a fatia de quem ganha até 5 salários mínimos recuou de 69,4% para 57,4%, com queda real de 10,6% no saldo. Esse grupo ainda é a maior fatia do total, mas a direção da mudança é clara. Isso mostra que o uso dessas linhas por quem tem renda menor está diminuindo, mesmo enquanto cresce entre quem ganha mais.

Por que esse resultado surpreende?

O Cheque especial e rotativo costumam ser vistos como recursos de quem não tem outra opção, já que a renda mais baixa ainda responde pela maior parte do saldo. Mas o crescimento entre as faixas de renda mais alta mostra que essas modalidades alcançam um perfil bem mais amplo.

O dado importa porque desafia a ideia de que cheque especial e rotativo são um problema só de quem tem pouco, o que pode levar ao descuido também entre quem tem mais renda. Afinal, taxas altas corroem o orçamento independentemente da faixa de renda de quem contrai a dívida.

O que especialistas apontam como hipótese

As causas não foram definidas pelo Banco Central, mas economistas apontam hipóteses ainda sem confirmação. Uma delas é a pressão do consumo aspiracional, inclusive pelas redes sociais. Outra é a possibilidade de essas dívidas virem se acumulando desde o período pós-pandemia, quando a oferta de crédito aumentou e o consumo se recuperou.

Soma-se a isso a combinação de juros elevados com uma análise de risco pouco rigorosa, além da chance de os bancos terem ampliado limites para clientes de maior renda, por representarem menor risco num momento em que o calote cresceu entre as famílias de renda mais baixa. Nenhuma explicação é definitiva, e o fenômeno provavelmente combina mais de um fator.

Por que cheque especial e rotativo custam caro para qualquer perfil?

Dados do Banco Central de agosto de 2026 mostram que o cartão rotativo cobrava, em média, 15,18% ao mês e o cheque especial, 7,43% ao mês. Essas modalidades estão entre as linhas de crédito mais caras do país, e as taxas efetivamente cobradas variam conforme a instituição.

Numa simulação simples, sem outros pagamentos ou encargos no período, uma dívida de R$ 5.000,00 no rotativo passaria para R$ 5.759,00 já no mês seguinte. No cheque especial, nas mesmas condições, a dívida chegaria a R$ 5.371,50, um ritmo menor, mas igualmente significativo. Quanto mais tempo a dívida fica aberta, maior o custo acumulado para qualquer perfil.

O que fazer se você usa cheque especial e rotativo?

Se cheque especial ou rotativo fazem parte do seu orçamento agora, tratar a situação com rapidez faz diferença. Algumas orientações práticas:

  • Priorize quitar essas dívidas antes de qualquer gasto não essencial.
  • Se você tem acesso a crédito consignado, compare as taxas e o Custo Efetivo Total (CET), pois essa modalidade costuma oferecer condições mais baratas.
  • Verifique com o seu banco se há possibilidade de renegociação para uma linha mais barata.
  • Desde 3 de janeiro de 2024, nas operações abrangidas pela regra, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem ultrapassar 100% do valor original da dívida.
  • Trate cheque especial e rotativo como último recurso, não como extensão do orçamento mensal.

Crédito caro não escolhe faixa de renda

O levantamento convida a rever uma ideia comum. Cheque especial e rotativo não são um problema restrito a quem tem pouco: a participação de famílias de renda mais alta no saldo dessas modalidades cresceu nos últimos anos, e as taxas permanecem entre as mais altas do mercado para qualquer perfil.

Antes de recorrer a essas linhas de novo, vale conferir se existe uma alternativa mais barata para a sua situação específica. No Clube Utua, você encontra análises como essa para comparar opções de crédito e tomar decisões financeiras com mais informação e menos surpresa.

Sobre o Autor

Mariana Murta
Mariana Murta

Atua desde 2022 como analista de conteúdo do Utua. Já escreveu mais de 2.400 textos para diversos países, explorando diferentes culturas e estilos de comunicação.