O celular vibra. Aparece uma notificação: “oferta relâmpago, só até meia-noite”. Minutos depois, um item que nem estava nos planos já está no carrinho. Essa cena de compra por impulso é mais comum do que parece — e os dados confirmam. Quer ver?
Uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil, em parceria com o Sebrae, já mostrava em 2021 que notificações de aplicativos eram o estímulo que mais levava brasileiros a comprar por impulso, citado por 58% dos entrevistados — à frente de e-mails promocionais (49%) e propagandas no Instagram (48%).
Por que voltar a esse tema agora? Porque o problema segue atual: os dados mais recentes, reunidos a seguir, mostram que a compra por impulso continua sendo um desafio significativo para boa parte dos brasileiros.
O que os dados mais recentes mostram sobre compra por impulso?
Uma nova pesquisa da CNDL e do SPC Brasil, feita em parceria com a empresa Offerwise, trouxe números atualizados. A coleta aconteceu entre 13 e 25 de junho de 2025, com divulgação em 10 de novembro de 2025.
O resultado: 62% dos brasileiros fizeram compras não planejadas na internet, 40% gastaram além do que haviam planejado no orçamento e 35% chegaram a entrar em dívida ou atraso por causa desse tipo de compra.
Nesse mesmo levantamento, os gatilhos mais citados pelos consumidores para esse tipo de compra foram as promoções (54%), seguidas de frete grátis (45%), lançamentos de produtos (25%), descontos progressivos (22%) e avaliações de outros compradores (19%).
Já as notificações de aplicativos como gatilho específico aparecem em outro estudo da CNDL/SPC Brasil, de 2023/2024, sobre consumo omnichannel: nele, 48% dos entrevistados apontaram as notificações de ofertas como o principal estímulo à compra por impulso na internet, à frente de e-mails promocionais (33%), anúncios em redes sociais (32%) e recomendações de outros usuários (28%).
Realidade que se confirma em diferentes pesquisas
Já em 2026, um levantamento da empresa de pagamentos Okto, divulgado em maio daquele ano com dados do primeiro trimestre, mostrou que 93% dos consumidores fizeram compras on-line não planejadas no período.
A maior parte delas foi motivada pelo uso do celular — plataforma que respondeu por 80% das transações da pesquisa — e por gatilhos como notificações, promoções relâmpago e datas comemorativas.
Vale um cuidado de leitura importante: essa pesquisa da Okto usa metodologia e público diferentes dos levantamentos da CNDL/SPC Brasil, então os números não devem ser somados ou comparados diretamente. Ainda assim, olhando o conjunto das pesquisas, a direção é a mesma: o gatilho das notificações para compras não planejadas segue relevante.
Por que as notificações funcionam tão bem como gatilho?
Segundo estudos de comportamento do consumidor, as notificações de oferta costumam ser desenhadas para interromper o raciocínio no momento em que a pessoa está mais vulnerável a decidir rápido, combinando dois gatilhos conhecidos da psicologia do consumo: a urgência (tempo limitado) e a exclusividade (oferta só para você, só agora).
Juntos, esses gatilhos tendem a empurrar a decisão antes que a reflexão entre em ação — o que ajuda a explicar por que até quem tem consciência do próprio comportamento acaba caindo no gatilho de vez em quando, mais por esse desenho do que por falta de força de vontade.
Como evitar compra por impulso: passos para retomar o controle?
Antes de pensar em deletar aplicativos inteiros, existem passos mais simples:
✔️ Desative as notificações push de ofertas e promoções, mantendo o aplicativo instalado para quando você realmente precisar dele.
✔️ Adote a regra das 24 horas: espere um dia inteiro antes de finalizar uma compra que não estava planejada.
✔️ Revise, de tempos em tempos, quais aplicativos mais costumam gerar essa vontade repentina.
✔️ Observe, por um mês, quais notificações você realmente abre e converte em compra — e quais apenas geram a ansiedade de estar “perdendo uma oferta”. Essa observação simples já ajuda a identificar quais apps vale a pena silenciar primeiro.
Mais dicas para não cair nas tentações sem pensar
Outra alternativa prática é separar, dentro do próprio orçamento mensal, um valor pequeno já destinado a compras por impulso. Assim, quando a notificação aparecer e a vontade for grande demais para ignorar, a decisão de comprar não compromete outras prioridades — ela só usa um espaço que já estava reservado para esse tipo de gasto, sem culpa e sem desorganizar o restante do orçamento.
A pergunta que vale carregar para a próxima notificação que aparecer na tela é simples: ela está avisando sobre algo que eu já queria comprar, ou está criando uma vontade que não existia um minuto atrás? Essa pequena pausa, de poucos segundos, costuma ser suficiente para devolver à decisão o tempo que a notificação tentou tirar dela.
Se esse tipo de reflexão ajudou a enxergar seus próprios gatilhos de consumo, vale continuar explorando outros hábitos financeiros no Clube Utua — entender como pequenas decisões do dia a dia afetam seu orçamento é um dos primeiros passos para organizar a vida financeira.