O Brasil fechou 2025 com um número expressivo de novos milionários, segundo o mais recente levantamento global sobre riqueza do banco suíço UBS. Milhares de brasileiros passaram a ter patrimônio superior a US$ 1 milhão em apenas um ano. À primeira vista, parece só uma boa notícia – e, em parte, é.
Mas o mesmo relatório mostra que o país continua entre os mais desiguais do mundo em concentração de riqueza. Entender esse fenômeno ajuda a interpretar melhor os números do noticiário e a sua própria relação com o dinheiro.
O que é concentração de riqueza?
Concentração de riqueza é a forma como o patrimônio de um país – imóveis, investimentos, empresas – está distribuído entre a população. Quando uma parcela pequena de pessoas detém uma fatia muito grande desse total, há alta concentração. É diferente de desigualdade de renda, que olha para o que se ganha por mês: riqueza é o que já foi acumulado; renda é o que entra periodicamente.
Esse acúmulo tem várias origens: herança entre gerações, acesso desigual a crédito e investimentos e o fato de que imóveis e ativos financeiros costumam se valorizar mais rápido do que os salários. Quem já tem capital para investir consegue fazer esse capital crescer mais rápido do que quem vive só do salário.
Por que esse tema divide opiniões no mundo todo?
A concentração de riqueza é debatida em praticamente todos os países. De um lado, há quem defenda que certo grau de desigualdade é natural em economias de mercado e incentiva empreendedorismo.
De outro, há quem alerte que a concentração excessiva reduz a mobilidade social e concentra poder econômico nas mãos de poucos, o que pode frear o crescimento do país inteiro, já que deixa boa parte da população com menos capacidade de consumir e investir em si mesma.
Não se trata de condenar quem enriquece, mas de reconhecer que o tamanho desse abismo tem consequências reais para quem está construindo patrimônio do zero. A concentração de riqueza, portanto, é um tema que será em constante debate na sociedade.
Coeficiente de Gini: o “termômetro” da desigualdade
Para medir esse fenômeno da concentração de riqueza, economistas usam o coeficiente de Gini, índice de 0 a 1: quanto mais perto de 0, mais igualitária a distribuição; quanto mais perto de 1, maior a concentração.
Existe uma diferença importante: o Gini de renda mede os rendimentos mensais, e o Gini de riqueza mede o que as pessoas acumularam ao longo da vida. O IBGE acompanha o primeiro; o UBS, o segundo. Como o patrimônio se concentra mais do que a renda, o Gini de riqueza costuma ser bem mais alto – e é o que acontece no Brasil.
Qual é a posição do Brasil segundo os dados mais recentes?
No relatório do UBS, o Brasil aparece com Gini de riqueza de 0,81, na 4ª posição entre 56 mercados (países) analisados, empatado com a África do Sul e atrás apenas de Rússia e Emirados Árabes Unidos. Já no campo da renda – quanto maior, mais desigual -, o IBGE mostra outro sinal de alerta: depois de cair nos anos anteriores, o Gini de renda domiciliar per capita subiu de 0,504 em 2024 para 0,511 em 2025.
Curiosidade: os países com menor desigualdade do mundo
Do outro lado do ranking global estão Eslováquia, Eslovênia e Bielorrússia, com os menores índices de Gini de concentração de riqueza do mundo, na faixa de 0,24. Isso se deve, principalmente, a programas robustos de proteção social – e combate à pobreza extrema -; políticas tributárias progressivas; e uma realidade na qual a maior parte da população possui imóvel próprio.
Vale um alerta: Gini baixo não é sinônimo de riqueza alta. O índice mede a distribuição relativa, não o padrão de vida absoluto: um país onde todos ganham pouco, mas de forma parecida, pode ter o mesmo Gini de um país onde todos ganham muito.
O que isso significa para o seu bolso?
Esses números ajudam a entender o cenário macro, mas a sua trajetória financeira não depende só dele. Ela também é resultado de decisões diárias: saber para onde vai o seu dinheiro, começar a investir mesmo com pouco, buscar conhecimento antes de decisões importantes.
Concentração de riqueza é um desafio estrutural do país, mas cuidar bem do que está ao seu alcance é o primeiro passo real para construir patrimônio.