Um morador do Distrito Federal acumulou R$ 12.300 em dívidas no cartão de crédito em janeiro de 2022. Quatro anos depois, esse valor chegou a R$ 788 mil, um crescimento de cerca de 65 vezes. Esse caso, noticiado em maio de 2026, não é exceção nem erro de sistema. É o crédito rotativo funcionando exatamente como foi projetado, e qualquer titular de cartão de crédito pode cair nessa armadilha se não entender como ela opera.
O Brasil tem uma das taxas de juros do cartão de crédito mais altas do mundo, e o crédito rotativo é a modalidade mais cara desse sistema. Antes das mudanças regulatórias recentes, as taxas chegavam a superar 400% ao ano, o que faz a dívida crescer numa velocidade que o salário dificilmente acompanha. Não é má sorte. É matemática.
Como o crédito rotativo funciona na prática
Quando você não paga o valor total da fatura, o saldo restante entra automaticamente no crédito rotativo. A partir daí, incidem juros sobre aquele valor, e no mês seguinte os juros são calculados sobre o novo total, que já inclui os encargos anteriores. É o chamado juro composto, e ele cresce de forma acelerada.
Imagine uma fatura de R$ 500 paga apenas pelo mínimo. No mês seguinte, você não deve mais R$ 500, mas algo como R$ 620 ou R$ 650, dependendo da taxa cobrada. No mês após, os juros incidem sobre esse valor maior, e assim por diante. Em poucos meses, a dívida original se torna irreconhecível, mesmo sem nenhuma compra nova.
O crédito rotativo não exige nenhuma ação do titular para ser ativado. Basta não pagar o total da fatura uma única vez para que o ciclo comece, e interrompê-lo exige quitar o saldo inteiro, não apenas continuar pagando o mínimo.
O que o teto de 100% garante
Em dezembro de 2023, o Conselho Monetário Nacional estabeleceu uma regra importante: para dívidas contraídas a partir de janeiro de 2024, os juros e encargos do crédito rotativo não podem ultrapassar 100% do valor original. Na prática, se você entrar no rotativo devendo R$ 1.000, o total cobrado não pode passar de R$ 2.000.
Essa proteção, porém, tem um limite claro: ela não se aplica a contratos firmados antes de janeiro de 2024. O caso dos R$ 788 mil começou em 2022, período em que essa regra ainda não existia. Ou seja, milhões de brasileiros com dívidas antigas continuam sujeitos ao crescimento sem teto. Mesmo com a nova regra, o crédito rotativo ainda é caro. O teto impede o pior cenário, mas não elimina o risco.
Os sinais de alerta no dia a dia
Algumas situações do cotidiano podem indicar que a dívida está saindo do controle, muitas vezes sem que o titular perceba. Pagar só o valor mínimo da fatura todos os meses é o sinal mais claro: o mínimo raramente cobre sequer os juros, então o saldo cresce mesmo com o pagamento em dia.
Parcelar a fatura diretamente pelo banco, acumular meses consecutivos no rotativo e usar o cartão para despesas básicas quando a renda está comprometida são outros comportamentos de risco. Nenhum deles indica irresponsabilidade, mas todos indicam que vale parar e rever o plano antes que a bola de neve ganhe velocidade.
O que fazer se a dívida já saiu do controle
Se você se identificou com alguma dessas situações, há caminhos concretos disponíveis. O Novo Desenrola Brasil, lançado em maio de 2026, oferece descontos de até 90% para quem tem renda de até 5 salários mínimos e dívidas em atraso entre 91 dias e dois anos. O programa permite inclusive usar até 20% do saldo do FGTS para abater o débito.
Mesmo fora do Desenrola, você tem o direito de negociar diretamente com a instituição financeira e de solicitar o extrato detalhado da evolução da dívida, com todas as taxas aplicadas em cada período. Conhecer os números é o primeiro passo para questionar cobranças indevidas e buscar um acordo viável. A dívida pode parecer irreversível, mas com as ferramentas certas ainda dá para virar o jogo.