21/08/2026
16h35
crédito no Brasil

Uma das maiores redes de varejo do país pediu recuperação judicial em agosto de 2026, declarando uma dívida de R$ 17,3 bilhões. O anúncio chamou atenção não só pelo tamanho do problema, mas pelo que ele revela sobre o momento do crédito no Brasil.

Entender os números por trás dessa crise ajuda a enxergar como o crédito no Brasil, marcado por juros altos e inadimplência, afeta empresas e famílias de formas parecidas, mesmo em escalas completamente diferentes.

Uma dívida bilionária que expõe o momento do crédito no Brasil

A empresa registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e fechou o período com patrimônio líquido negativo de R$ 8,1 bilhões. No pedido protocolado à Justiça, a companhia atribuiu a decisão a uma combinação de fatores, entre eles o custo elevado do crédito, a queda no consumo de bens que dependem de financiamento e o peso de dívidas acumuladas ao longo dos últimos anos.

O caso não é isolado. Outras redes do setor de móveis e eletrodomésticos também recorreram a processos semelhantes nos últimos meses, o que indica um momento de aperto seletivo, não um colapso generalizado do varejo brasileiro.

Por que os juros altos pesam tanto no crédito no Brasil

A Selic está em 14% ao ano, após o quarto corte consecutivo definido pelo Copom em agosto de 2026. Mesmo com a queda, o Banco Central ainda classifica o patamar como restritivo, ou seja, alto o suficiente para conter o consumo e a inflação, que acumula 4,44% em 12 meses.

Esse custo elevado se espalha por toda a cadeia de crédito no Brasil. Empresas pagam mais caro para financiar estoque e capital de giro, e esse custo tende a ser repassado, direta ou indiretamente, ao consumidor final através de juros mais altos no parcelamento e no crediário.

É um mecanismo parecido com o de uma dívida pessoal que cresce mês a mês, quando os juros incidem sobre um saldo que não para de aumentar. Na prática, dívidas caras se tornam mais difíceis de pagar quanto mais tempo levam para serem quitadas.

Inadimplência recorde: o retrato de quem já sente o aperto

Segundo dados da Serasa, o Brasil chegou a 81,7 milhões de pessoas negativadas em fevereiro de 2026, o maior número em 14 anos. Juntas, essas dívidas somam R$ 539 bilhões, com média de R$ 6.598 por consumidor.

Entre as famílias endividadas, o comprometimento de renda chega a 70,5%, e sobe para 90,1% entre quem recebe até um salário mínimo. Isso significa que boa parte da renda mensal já está destinada ao pagamento de dívidas antes mesmo de cobrir outras despesas.

O crédito rotativo do cartão continua entre os mais caros do mercado, com taxas que passam de 400% ao ano. Mesmo com o teto legal que limita os encargos totais a 100% da dívida original, o rotativo segue sendo uma das formas de crédito mais custosas disponíveis ao consumidor.

O que isso muda nas suas decisões de crédito

O cenário atual do crédito no Brasil reforça a importância de alguns cuidados práticos antes de assumir uma nova dívida:

  • Verificar o Custo Efetivo Total, CET, e não apenas a taxa de juros anunciada.
  • Priorizar linhas de crédito mais baratas, como consignado ou empréstimo pessoal, no lugar do rotativo do cartão.
  • Avaliar se o parcelamento cabe na renda mensal, considerando um cenário de juros ainda elevados.

Esses cuidados não eliminam a necessidade de crédito, mas ajudam a evitar que uma dívida comece pequena e cresça de forma difícil de controlar, o mesmo tipo de mecanismo que aparece, em outra escala, em casos como o dessa varejista.

Diante de um cenário de juros ainda restritivos e inadimplência em nível recorde, observar o momento atual do crédito no Brasil oferece uma lição útil para decisões do dia a dia. Antes de fechar um novo crediário ou financiamento, vale reservar um tempo para comparar taxas, entender o CET e considerar se aquele compromisso cabe no orçamento nos próximos meses, não apenas hoje.

Sobre o Autor

Mariana Murta
Mariana Murta

Atua desde 2022 como analista de conteúdo do Utua. Já escreveu mais de 2.400 textos para diversos países, explorando diferentes culturas e estilos de comunicação.