07/10/2026
18h45
dor de pagar

Você sai do mercado, aproxima o cartão na maquininha sem pensar muito e, no fim do mês, olha a fatura e pensa: não lembro de ter gastado tudo isso. Essa sensação tem explicação na psicologia do comportamento financeiro, e não é falta de atenção nem fraqueza de caráter.

O nome técnico é “dor de pagar”, e pesquisas de universidades como o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) mostram que o cérebro humano reage de formas muito diferentes a dinheiro vivo e a cartão, mesmo quando o valor gasto é exatamente o mesmo. Entender esse mecanismo ajuda a enxergar com mais clareza para onde o dinheiro está indo, sem culpa.

De onde vem o conceito de dor de pagar?

A dor de pagar é uma ideia que começou a ganhar forma no fim dos anos 1990, quando os pesquisadores Drazen Prelec e George Loewenstein descreveram, no artigo “The Red and the Black: Mental Accounting of Savings and Debt” (1998), como as pessoas sentem desconforto ao se desfazer de dinheiro, e como esse desconforto muda de intensidade dependendo da forma de pagamento.

Dez anos depois, em 2008, os pesquisadores Scott Rick, Cynthia Cryder e o próprio Loewenstein aprofundaram o conceito no estudo “Tightwads and Spendthrifts”, criando uma espécie de régua para medir o quanto cada pessoa sente essa dor ao gastar.

Pagar em dinheiro vivo é um gesto físico e visível: você vê as notas saindo da carteira, conta o troco, sente a perda de forma concreta e imediata. Pagar no cartão separa esse gesto da sensação de perda, que só aparece, se aparece, na fatura, semanas depois.

O que um experimento do MIT mostrou?

Em 2001, os pesquisadores Drazen Prelec e Duncan Simester, do MIT, publicaram o estudo “Always Leave Home Without It”, com um experimento revelador: pessoas participaram de um leilão real por ingressos de jogos de times de Boston, e metade delas foi informada de que pagaria em dinheiro vivo, enquanto a outra metade pagaria no cartão de crédito.

O resultado foi que quem pagaria no cartão ofereceu, em média, até o dobro do valor que quem pagaria em dinheiro estava disposto a oferecer pelo mesmo ingresso. Isso não significa que essas pessoas eram mais descontroladas ou menos cuidadosas com o próprio dinheiro.

O efeito apareceu em um grupo aleatório de participantes, o que mostra que ele faz parte de como o cérebro humano processa a ideia de gasto, e não de uma falha pessoal de quem usa cartão no dia a dia.

O que fazer com essa informação?

Ainda não existe uma pesquisa brasileira específica medindo esse efeito no Pix, mas a lógica por trás da dor de pagar ajuda a entender por que aproximar o celular na maquininha pode parecer, para muita gente, ainda mais rápido e indolor do que usar o cartão físico. A compra acontece em segundos, sem contagem de notas e sem fricção nenhuma.

O caminho prático não é abandonar cartão ou Pix e voltar a usar só dinheiro vivo, até porque isso nem sempre é viável. Funciona melhor criar um momento fixo na semana, sempre no mesmo dia, para olhar o extrato com calma. Esse hábito reintroduz, de forma consciente, a percepção que o pagamento digital tira automaticamente.

Organizar o orçamento faz a diferença

Outra estratégia simples é separar, mentalmente ou em uma conta à parte, o dinheiro de gastos variáveis do dinheiro de contas fixas, antes mesmo de o mês começar. Isso recria, de certa forma, a sensação de limite que o dinheiro vivo trazia naturalmente, sem exigir que você deixe de usar cartão ou Pix no dia a dia.

A próxima vez que a fatura surpreender, não se cobre por falta de controle. Em vez disso, se pergunte: em quais momentos eu sinto menos a saída desse dinheiro? Essa pergunta, feita com curiosidade e não com culpa, costuma revelar padrões de gasto que nenhum aplicativo de banco mostra sozinho.

Entender esses mecanismos psicológicos por trás do próprio bolso, como a dor de pagar, é um dos papéis que o Clube Utua gosta de cumprir: menos regra pronta, mais compreensão de como o cérebro lida com dinheiro no dia a dia. 

Sobre o Autor

Emelyn Vasques
Emelyn Vasques

Jornalista, atua há 8 anos nas áreas de assessoria de imprensa, comunicação e produção de conteúdos para diferentes veículos e plataformas. Destaca-se em sua trajetória a experiências como repórter no Jornal Diário do Comércio, especializado na cobertura econômica de Minas Gerais.