16/10/2026
10h21
eu do futuro

Imagine receber uma carta escrita por você mesmo, só que daqui a 40 anos — pedindo, com calma, para guardar um pouco mais de dinheiro hoje. Essa é a ideia por trás do conceito de eu do futuro, hoje bastante citado dentro da economia comportamental. Parece exercício de autoajuda, mas por trás dele existe um estudo científico sério.

O motivo de trazer esse tema no Clube Utua agora é simples: a maior parte das pessoas sabe, racionalmente, que deveria poupar mais. Porém, sente uma dificuldade quase física de abrir mão do dinheiro hoje em troca de um benefício que só vai aparecer anos à frente.

Entender por que isso acontece — e como pesquisadores conseguiram, de fato, mudar esse comportamento em laboratório — pode te dar uma ferramenta simples para usar na próxima decisão de guardar ou gastar.

O experimento que fez pessoas pouparem mais

Em 2011, o pesquisador Hal Hershfield liderou um estudo sobre esse tema, que hoje chamamos aqui de “eu do futuro”, ao lado de pesquisadores de Stanford. Como resultado, nasceu um estudo que contava a jornada de voluntários que interagiam com uma versão envelhecida de si mesmos.

Para isso, foi utilizado um avatar digital mostrando como aquela pessoa provavelmente seria décadas à frente. Ao longo das diferentes etapas da pesquisa, os cientistas usaram tanto realidade virtual imersiva quanto fotos envelhecidas digitalmente para criar esse avatar.

Em um dos experimentos, os participantes dividiam hipoteticamente US$ 1.000 entre diferentes destinos financeiros, incluindo um fundo de aposentadoria. Os resultados foram claros:

💸 Quem interagiu com o avatar envelhecido destinou, em média, US$ 172 dos US$ 1.000 ao fundo de aposentadoria — mais do que o dobro do valor.
💸 Quem viu apenas uma versão atual de si mesmo destinou, em média, US$ 80 ao mesmo fundo.

Ou seja: aproximar o eu do futuro da experiência presente mudou as escolhas feitas pelos participantes dentro do experimento.

Por que imaginar o eu do futuro muda o comportamento?

O próprio estudo explica esse efeito por meio do conceito de continuidade do eu futuro. Segundo essa ideia, o cérebro tende a tratar a versão de nós mesmos daqui a décadas quase como se fosse uma pessoa estranha, o que reduz a disposição de fazer sacrifícios hoje em nome dela.

Esse conceito conversa com uma ideia mais ampla da economia comportamental, o viés do presente — a tendência de dar peso desproporcional ao que está acontecendo agora, em detrimento do que vai acontecer depois.

No entanto, não é exatamente a mesma coisa: enquanto o viés do presente descreve como o cérebro “desconta” o valor do futuro, a continuidade do eu futuro descreve o quanto a pessoa se sente, de fato, a mesma pessoa que será lá na frente.

Por isso, quando o eu do futuro deixa de ser uma ideia abstrata e distante e passa a ter um rosto, mesmo que imaginado, o cérebro parece tratá-lo com mais empatia. E as decisões financeiras tendem a mudar junto.

Como aplicar essa ideia no dia a dia (sem laboratório nem avatar)?

A boa notícia é que não é preciso nenhum equipamento de realidade virtual para se beneficiar desse princípio. Um exercício simples é escrever, de próprio punho, uma mensagem para a versão de você daqui a 10, 20 ou 30 anos, descrevendo uma meta financeira específica e por que ela importa.

Outra alternativa é, antes de uma decisão de gasto maior, parar por um minuto e imaginar concretamente uma cena da sua vida em um momento futuro específico. Não de forma vaga, mas com detalhes: onde você estará, o que estará fazendo, do que vai precisar.

Esse tipo de exercício não é mágica nem garante resultado financeiro automático. Ele é apenas uma forma de dar mais “realidade” a uma versão sua que, de outro modo, fica fácil de ignorar no dia a dia. Ainda assim, pesquisas como a de Hershfield mostram que esse pequeno deslocamento de perspectiva é capaz de inclinar as escolhas das pessoas na direção de poupar mais.

A pergunta que vale levar para a próxima decisão

Da próxima vez que estiver diante de uma escolha entre gastar agora ou guardar para depois, vale substituir a pergunta automática “eu quero isso agora?” por outra, um pouco mais incômoda: “essa decisão também faz sentido para a pessoa que eu vou ser daqui a alguns anos?”

Não existe resposta certa única — cada pessoa tem suas prioridades e seu momento de vida. Mas o simples hábito de incluir o eu do futuro na conversa já é, por si só, um jeito de tomar decisões mais conscientes com o próprio dinheiro.

Se você quer continuar treinando esse tipo de reflexão sobre dinheiro, vale explorar outros conteúdos do Clube Utua sobre comportamento financeiro e planejamento de longo prazo.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui orientação financeira ou psicológica profissional individualizada.

Sobre o Autor

Emelyn Vasques
Emelyn Vasques

Jornalista, atua há 8 anos nas áreas de assessoria de imprensa, comunicação e produção de conteúdos para diferentes veículos e plataformas. Destaca-se em sua trajetória a experiências como repórter no Jornal Diário do Comércio, especializado na cobertura econômica de Minas Gerais.