O número de idosos inadimplentes no Brasil mais que dobrou em dez anos. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, 15,8 milhões de pessoas com mais de 60 anos estavam com contas atrasadas em fevereiro de 2026, e a fatia desse grupo no total de inadimplentes do país subiu de 12,2% para 19,4% desde 2016. No mesmo período, o número total de brasileiros com contas em atraso cresceu 38%, e nenhuma outra faixa etária avançou tanto.
O salto de idosos inadimplentes contraria a ideia de que quem tem mais idade é sempre mais cuidadoso com o dinheiro. Boa parte da explicação está dentro de casa, porque muitos aposentados acabam usando a própria renda, e o próprio crédito, para socorrer filhos e netos.
Por que o número de idosos inadimplentes no Brasil cresceu?
A expressão “banco da família” descreve o idoso que, diante de uma dificuldade financeira de filho ou neto, decide ajudar com os próprios recursos. Pode ser um dinheiro emprestado, uma parte da aposentadoria que vai todo mês para outra casa ou uma assinatura como fiador.
O caminho mais comum, porém, é o empréstimo consignado: o aposentado contrata o crédito em seu nome, o parente fica com o dinheiro e a parcela sai da aposentadoria antes mesmo de o benefício cair na conta.
O consignado em si quase nunca atrasa, justamente porque é descontado na fonte. O aperto aparece no resto do orçamento. Com a renda fixa já menor, sobra pouca margem para as contas do mês, e uma despesa médica, um conserto urgente ou uma alta na conta de luz bastam para o boleto atrasar.
É assim que muitos idosos inadimplentes chegam ao nome sujo: tentando ajudar, e não gastando com eles mesmos. Os golpes pioram o quadro, já que, segundo a Serasa, quatro em cada dez idosos dizem já ter perdido dinheiro com fraudes.
Por que essa ajuda pode sair caro?
Quando o idoso se torna fiador, ele assume o compromisso junto com quem pegou o dinheiro, e não no lugar dessa pessoa. Se quem contratou não pagar, o banco, a loja ou o dono do imóvel pode cobrar o fiador, mesmo que ele não tenha usado nada daquele valor, e o nome dele pode ficar negativado até tudo se resolver, engrossando a lista de idosos inadimplentes por uma dívida que nem era dele.
No aluguel o risco é ainda maior, porque a lei permite penhorar até o único imóvel do fiador, que em outras dívidas costuma ser protegido como bem de família.
Existe ainda um risco menos falado. Quando alguém convence o idoso a pegar um empréstimo em nome dele só para repassar o dinheiro, e depois deixa a conta com ele, a situação pode configurar crime previsto no Estatuto da Pessoa Idosa, e não só um problema financeiro.
Muitas vezes começa pequeno, um valor emprestado aqui, outro ali, sem combinar quando será devolvido, e vira uma dívida silenciosa dentro da própria família.
Perguntas práticas antes de ajudar
Antes de emprestar dinheiro, contratar um consignado para outra pessoa ou virar fiador de alguém da família, vale checar três pontos, porque muitas histórias de idosos inadimplentes começam com um favor feito às pressas.
• Cabe no orçamento sem comprometer contas essenciais? Aluguel, alimentação, remédios e contas básicas vêm antes de qualquer ajuda.
• É um empréstimo, um consignado ou uma fiança? No empréstimo, você sabe quanto sai do bolso. No consignado feito em seu nome, a dívida é sua até a última parcela, mesmo que outra pessoa tenha prometido pagar. Na fiança, você só é cobrado se o devedor falhar, mas aí pode ter de pagar tudo, e sair dela não é simples: só a fiança sem prazo definido permite pedir a saída, e mesmo assim você continua responsável por mais 60 dias depois de avisar o credor, ou 120 dias no caso de aluguel.
• Existe um combinado claro de quando e como o dinheiro será devolvido? Não precisa ser um papel assinado, mas precisa ficar claro entre as duas pessoas.
Já está inadimplente? Veja os caminhos possíveis
Os idosos inadimplentes que já estão com o nome sujo também têm caminhos para se organizar. A Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021) permite reunir as dívidas de consumo em um único plano de pagamento, em até cinco anos, com parcelas que preservem um valor mínimo para comida, moradia e remédios, hoje fixado em R$ 600,00 por mês como referência. É possível pedir essa negociação gratuitamente no Procon, que costuma fazer mutirões de renegociação, ou na Defensoria Pública.
Se a dívida veio de um golpe ou de um empréstimo feito para outra pessoa usar o dinheiro, o caminho é guardar documentos, extratos e comprovantes de quem recebeu o valor e procurar a Delegacia do Idoso ou ligar no Disque 100.
Para evitar que a história se repita, vale saber que, com a Lei 15.327/2026, o benefício do INSS fica bloqueado para novos consignados depois de cada contratação, e o desbloqueio só pode ser feito pelo próprio aposentado, no aplicativo Meu INSS e com biometria, nunca por procuração ou telefone. Isso ajuda a evitar novos golpes e devolve o controle sobre o próprio dinheiro.
Ajudar faz sentido, mas o planejamento também protege
Apoiar a família é um gesto bonito e, muitas vezes, necessário. O que os números sobre idosos inadimplentes mostram é que, sem planejamento, esse apoio costuma terminar com o idoso mais vulnerável do que quem ele queria ajudar.
Entender como funciona um empréstimo, o que significa virar fiador e quais caminhos existem para reorganizar uma dívida é o que separa uma ajuda que fortalece de uma que sai cara demais. Se na sua família é você quem costuma ser procurado, ou quem costuma pedir, essa conversa vale muito mais antes do pedido do que depois.