08/10/2026
14h12
pessoa fazendo a conta do ganho real para desfazer a ilusão monetária no salário e no aluguel

Duas pessoas se formam juntas e começam em empregos parecidos. No fim do primeiro ano, Ann ganha 2% de aumento num ano sem inflação, e Barbara ganha 5% num ano em que os preços sobem 4%. Qual das duas você acha que está mais satisfeita?

A pergunta vem de um estudo sobre ilusão monetária publicado em 1997 pelos economistas Eldar Shafir, Peter Diamond e Amos Tversky. Quando o assunto era quem estava melhor em termos econômicos, a maioria apontou Ann, mas quando era quem estava mais feliz, a maioria apostou em Barbara. É esse o descompasso que dá nome ao fenômeno: a tendência de julgar o dinheiro pelo número que aparece no contracheque, e não pelo que ele compra.

Outubro é um mês fácil para cair na ilusão monetária, porque é quando muita gente recebe reajuste de salário e vê o boleto do aluguel corrigido. E a inflação segue no radar: no Boletim Focus de 5 de outubro, o mercado subiu de novo a projeção do IPCA de 2026, para 5,01%, acima do teto da meta. A boa notícia é que uma conta só, que cabe na calculadora do celular, mostra se o seu aumento é real.

Por que a ilusão monetária engana até quem sabe fazer conta

Se você também escolheria Barbara, respire: não é falta de atenção. O aumento chega de uma vez, num número redondo no contracheque, enquanto a inflação vem picada, um pouco no mercado, um pouco na conta de luz, outro tanto no posto. A gente guarda o primeiro e mal percebe a segunda.

Valor nominal é o número do contracheque ou do extrato, e valor real é o que ele compra depois que os preços sobem. A conta abaixo serve justamente para trocar um pelo outro.

A conta que desfaz a ilusão monetária

A conta tem dois passos. Primeiro, escreva o aumento e a inflação com um 1 na frente, de modo que 3% vira 1,03 e 5% vira 1,05. Depois, divida o aumento pela inflação: se o resultado passar de 1, o dinheiro passou a comprar mais, e se ficar abaixo de 1, passou a comprar menos.

Com aumento de 3% e inflação de 5%, 1,03 dividido por 1,05 dá 0,98. O salário subiu e, mesmo assim, compra cerca de 2% menos do que antes. Foi o que aconteceu com Barbara: o aumento dela parecia maior, mas rendeu menos que o de Ann.

Sem calculadora à mão, tirar a inflação do aumento já dá uma boa ideia, porque o resultado fica bem perto do certo enquanto os percentuais são pequenos.

No salário, o argumento é em reais

Imagine um salário de R$ 4.000,00 com reajuste de 3%, num período em que a inflação foi de 5%. O contracheque sobe para R$ 4.120,00, mas manter o poder de compra exigiria R$ 4.200,00. São R$ 80,00 a menos por mês, que passam de R$ 1.000,00 no ano quando se conta o 13º.

É esse valor, e não o percentual, que muda o tom da conversa com o gestor. Leve a inflação acumulada desde o seu último reajuste, que nos acordos coletivos costuma ser medida pelo INPC, e mostre quanto o salário perdeu em reais. Pedir a reposição de uma perda que você consegue provar é bem diferente de pedir “um aumento”, e é assim que a ilusão monetária deixa de jogar contra você.

No aluguel, o índice é limite, não destino

Nos contratos corrigidos pelo IGP-M com aniversário em outubro, o reajuste previsto é de 3,34%, o acumulado em 12 meses até setembro segundo a FGV. Um aluguel de R$ 2.000,00 iria para R$ 2.066,80, com R$ 66,80 a mais por mês.

O índice é o limite previsto no contrato, e o valor pode ser negociado entre as partes. Antes de aceitar ou fazer uma contraproposta, compare o novo valor com o de imóveis parecidos na região e coloque a mudança na conta, porque ela pesa dos dois lados.

Para o inquilino, frete, pintura e as despesas de um contrato novo saem caro, e para o proprietário um único mês de imóvel vazio custa R$ 2.000,00, mais do que esse reajuste soma em dois anos. Conversar antes do vencimento costuma sair mais barato para os dois.

Nos investimentos: rendeu 10%, mas comprou quanto?

Se o extrato mostra “rendeu 10%” e a inflação do mesmo período foi de 5%, o ganho real fica perto de 4,8%, e não de 10%. Em R$ 10.000,00, o saldo vai a R$ 11.000,00, mas o poder de compra extra é de uns R$ 476,00, menos da metade do que a tela sugere.

É a ilusão monetária em versão extrato. Para comparar aplicações de prazos diferentes, transforme as duas em taxa anual e desconte a inflação de cada período. Assim, 20% em três anos, que parecem muito mais que 8% em um ano, se revelam pouco mais de 6% ao ano antes mesmo de descontar a inflação.

Três contas para fazer ainda hoje

Pegue o último aumento, o próximo reajuste do aluguel e o rendimento da reserva no último ano, e passe cada um pela conta com a inflação do mesmo período. Ao lado de cada resultado, anote o valor em reais, porque é esse número que você leva para a próxima conversa com o chefe ou com o dono do imóvel.

Feito isso uma vez, a pergunta “quanto subiu?” passa a vir sempre acompanhada de outra, “quanto isso compra?”, e a ilusão monetária perde a graça. Para ler o resto do contracheque e do extrato, conte com os outros conteúdos do Clube Utua.

O Clube Utua é uma mídia educativa: este conteúdo é informativo, não constitui recomendação de investimento nem orientação jurídica sobre contratos de locação ou trabalhistas, e não indica índice de reajuste, banco ou aplicação.

Sobre o Autor

Paula Gargiulo
Paula Gargiulo

Jornalista especializado em Jornalismo Digital, com experiência em SEO, redação web, marketing de conteúdo e estratégias de conteúdo baseadas em dados. Ela é responsável pela estratégia editorial, produção de conteúdo e padrões de qualidade da UTUA, garantindo precisão, consistência, clareza e alinhamento com os padrões de comunicação editorial e financeira em todos os materiais publicados. Desde 2020, ela contribuiu com mais de 20.000 peças de conteúdo em mais de 60 países.