15/05/2026
00h36
incertezas

O início de 2026 trouxe o que muitos investidores brasileiros aguardavam: o Comitê de Política Monetária, o Copom, iniciou um ciclo de cortes na taxa Selic. Mas ninguém contava com tantas incertezas no cenário externo, ainda que o ano de eleições no Brasil já sinalizasse que internamente teríamos questões complexas.

Após manter os juros em 15% ao ano em janeiro, o Banco Central reduziu a taxa em 0,25 ponto percentual em março, para 14,75%, e repetiu o movimento em abril, levando a taxa Selic a 14,5% ao ano. Era o sinal de que a política monetária restritiva começava, enfim, a ceder.

Mas o alívio veio acompanhado de ruído. O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, deflagrado no fim de fevereiro de 2026, transformou o Oriente Médio em um epicentro de incertezas que rapidamente se espalharam pelos mercados globais. E o Brasil, por mais que esteja geograficamente distante, não está imune ao tremor.

Petróleo nas alturas, inflação no radar

O efeito mais imediato da guerra foi a disparada no preço do petróleo. O barril do tipo Brent, que encerrou 2025 próximo de US$ 70, ultrapassou US$ 111 com o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, uma passagem estratégica por onde trafega cerca de 25% do combustível marítimo global.

Para uma economia em que os combustíveis pesam diretamente na cesta básica como a brasileira, isso se traduz em pressão inflacionária quase imediata. Diferentemente das incertezas que ainda não podemos entender de forma total, os efeitos já são vistos na mesa, com o encarecimento de diversos alimentos.

E nesse cenário de incertezas, o mercado já tem sinalizado que a inflação deve ficar acima do teto da meta. Isso complica diretamente a equação da taxa Selic. Quanto mais a inflação resiste, menos espaço o Copom tem para continuar cortando os juros.

Incertezas não significam paralisia

É justamente aqui, em meio às incertezas que não podem ser calculadas, que muita gente trava. O cenário nebuloso faz com que alguns investidores segurem o dinheiro esperando “a poeira baixar”. Mas ficar parado também é uma escolha, e pode ser uma escolha cara, especialmente com a inflação corroendo silenciosamente o poder de compra.

A palavra de ordem do momento, portanto, é diversificação, mas com estratégia. Não existe um único ativo que cubra todos os riscos e incertezas simultaneamente, e tentar adivinhar o comportamento dos mercados em cenário de guerra raramente é uma estratégia vencedora.

Renda fixa: proteção com rendimento real

Com a taxa Selic ainda em patamar ainda elevado, a renda fixa continua sendo uma alternativa interessante e relativamente segura. Títulos pós-fixados, como o Tesouro Selic ou CDBs atrelados ao CDI, entregam rentabilidade previsível com liquidez.

Para quem quer proteção contra a inflação, os títulos IPCA+, como o Tesouro IPCA+, ganham relevância especial neste momento, já que eles garantem um ganho real mesmo que os preços continuem acelerando.

A cautela recomendada é com os prazos: em cenários de incertezas, priorize vencimentos mais curtos ou ativos com liquidez diária, para manter flexibilidade caso o quadro mude rapidamente.

Renda variável: risco com seletividade

Isso não significa que a renda variável deva ser descartada. Setores como commodities, energia e exportações tendem a se beneficiar do contexto geopolítico atual. Empresas com receita em dólar, por exemplo, podem ver suas margens crescerem enquanto o real sofre pressão cambial.

O ponto de atenção é que 2026 é um ano eleitoral, conforme pontuamos no início do texto, o que adiciona volatilidade ao mercado doméstico e amplia a sensibilidade a declarações políticas e ruídos fiscais. Quem decide expor parte do capital à bolsa neste momento deve ter horizonte de longo prazo e disposição para suportar oscilações.

O que fazer na prática?

Pode se dizer é que este é um momento de equilíbrio. A taxa Selic ainda remunera bem o capital, o que reduz a urgência de assumir riscos elevados. Ao mesmo tempo, uma parcela do portfólio exposta a ativos reais e internacionais pode funcionar como um escudo contra a desvalorização cambial e a inflação crescente.

Reavalie sua carteira com calma, analise os cenários possíveis e, se necessário, busque a orientação de um assessor de investimentos. Em tempos de guerra e incerteza, preservar capital pode ser tão inteligente quanto fazê-lo crescer. E quem sabe fazer as duas coisas ao mesmo tempo sai na frente.

Sobre o Autor

Emelyn Vasques
Emelyn Vasques

Jornalista, atua há 8 anos nas áreas de assessoria de imprensa, comunicação e produção de conteúdos para diferentes veículos e plataformas. Destaca-se em sua trajetória a experiências como repórter no Jornal Diário do Comércio, especializado na cobertura econômica de Minas Gerais.