Se alguém calculasse o tamanho médio do pé dos brasileiros, o resultado seria um número quebrado que ninguém calça. A inflação oficial funciona de um jeito parecido: é uma média bem-feita, mas não é o número exato de ninguém. O seu, que dá para chamar de inflação pessoal, pode estar acima ou abaixo da manchete.
Setembro é um bom mês para testar isso, porque a prévia da inflação subiu 0,70%, mas houve quem abrisse a conta de luz e encontrasse mais de 7% de aumento. Em 15 minutos, com o extrato e uma calculadora, você descobre de que lado da média está, e o passo a passo vem logo abaixo.
Por que a sua inflação pessoal não é a do jornal
O 0,70% vem do IPCA-15, a prévia do IPCA, que é o principal termômetro da inflação no Brasil. Para chegar nele, o IBGE anota preços em 11 áreas do país e dá a cada item um peso conforme o gasto médio das famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos. É como uma cesta montada para uma família que não existe, então, se o seu carrinho é diferente, a sua inflação também será.
Pense em três casas, cada uma com a sua inflação pessoal. Na casa da Ana, a família é grande e o mercado e a luz levam boa parte do salário, por isso setembro pesou. O Paulo mora sozinho, come fora e gasta mais com aluguel e ônibus, então o mês passou quase sem susto, e o aperto dele deve chegar no reajuste do aluguel. Já a Lúcia é aposentada e viaja para visitar a família, e o que mais aperta no orçamento dela é a passagem mais cara.
Isso aparece nos números do Ipea, que mede essa diferença por faixa de renda. Nos 12 meses até agosto de 2026, a inflação foi de 3,85% para as famílias de renda muito baixa e de 4,63% para as de renda alta, ou seja, mesmos preços e sapatos diferentes.
Como calcular a sua inflação pessoal
Pegue o extrato do banco e monte uma tabela de duas colunas:
1. Na primeira, as cinco maiores despesas de hoje
2. Na segunda, o valor de cada uma seis meses atrás
3. Divida o total de hoje pelo antigo, tire 1 e multiplique por 100.
Num exemplo hipotético, as cinco despesas somavam R$ 2.250,00 há seis meses e somam R$ 2.335,00 hoje, porque o mercado foi de R$ 800,00 para R$ 860,00 e a luz, de R$ 150,00 para R$ 175,00, enquanto as outras três ficaram iguais. A conta fica (2.335 ÷ 2.250 − 1) × 100 = 3,78%, que é a inflação pessoal dessa casa em seis meses.
Só não confunda preço com consumo, porque, se a luz subiu só porque o ventilador ficou ligado a noite toda, o que mudou foi o uso, e o kWh da fatura vai mostrar isso.
O desconto que foi embora
A conta de luz explica boa parte do salto de setembro. Em agosto, as faturas vieram com o Bônus de Itaipu, um crédito pontual, e a prévia caiu 0,40%, mas em setembro o crédito não se repetiu, e a energia elétrica residencial subiu 7,42%, em média.
Foi isso que mais pesou na casa da Ana, junto com o tomate, que subiu 20,76%, enquanto a Lúcia sentiu as passagens aéreas, 9,82% mais caras. A prévia veio acima do esperado pelo mercado e levou a inflação a 4,47% em 12 meses, perto do teto da meta oficial, que é de 3% com tolerância até 4,5% (IBGE, 25/09/2026).
A importância de se conhecer a inflação pessoal
A primeira utilidade é parar de brigar com a manchete, porque ela está certa sobre a média, e você está certo sobre o seu bolso. A segunda é ler o salário com outros olhos: um reajuste igual ao índice oficial repõe a média, mas pode não cobrir a alta das despesas que mais pesam para você.
A pergunta da semana
Qual item do seu mês mais subiu? Comece pela luz, que foi o item que mais pesou em setembro: ponha lado a lado as faturas de agosto e setembro e compare o total, o consumo em kWh e se aparece algum crédito. Em cinco minutos, você sabe se foi o preço, o consumo ou o desconto que acabou.
Anote o resultado e refaça o cálculo da sua inflação pessoal daqui a seis meses. Aqui no Clube Utua, a ideia é essa: trocar a irritação com um número distante por um número que é seu.
O Clube Utua é uma mídia educativa: este conteúdo é informativo e não constitui recomendação financeira, jurídica ou previdenciária. Dados conferidos em 29/09/2026, com base no IPCA-15 de setembro; o IPCA completo de setembro será divulgado pelo IBGE em 09/10/2026.