05/10/2026
14h39
fatura com o campo de juros circulado ao lado de manchete sobre a Selic, ilustrando os juros do cartão de crédito

Os juros do cartão de crédito e os da economia andaram em direções opostas nas últimas semanas. Em 16 de setembro, o Copom, comitê do Banco Central que define a taxa básica, cortou a Selic para 13,75% ao ano. No fim do mês, o próprio Banco Central mostrou que os juros médios do rotativo, a linha que entra em cena quando a fatura não é paga inteira, subiram para 444,9% ao ano em agosto.

Se você tem uma conta pendurada no cartão e pensou “agora que os juros caíram, dá para esperar mais um pouco”, respire: a dúvida faz sentido, mas a resposta é não. Os juros da manchete não são os mesmos da sua fatura, e o número que realmente importa já vem impresso nela: a taxa e o Custo Efetivo Total (CET) do rotativo. A seguir, você entende por que eles não caem junto com a Selic e o que dá para fazer a partir de hoje.

A Selic é o ponto de partida, não o preço final

A Selic é a taxa de referência que o Banco Central usa para controlar a inflação. Pense nela como o preço do dinheiro no atacado: o banco compra nesse atacado, mas o preço que cobra no varejo soma custos, impostos e, principalmente, o risco de não receber de volta — e é esse risco que separa uma linha de crédito da outra.

Por que os juros do cartão de crédito não acompanham a Selic

A Selic é a taxa de referência que o Banco Central usa para controlar a inflação. Pense nela como o preço do dinheiro no atacado: o banco compra nesse atacado, mas o preço que cobra no varejo soma custos, impostos e, principalmente, o risco de não receber de volta, e é esse risco que separa uma linha de crédito da outra.

No rotativo, esse risco é alto. Quando você paga menos que o total da fatura, o banco cobre a diferença na hora e sem pedir garantia, ao contrário do financiamento de imóvel, em que a casa fica como segurança. Sem nada para recuperar se o cliente não pagar, o risco pesa no preço dos juros do cartão de crédito.

Some a isso o maior calote do mercado: em agosto, 66,2% do dinheiro emprestado a pessoas físicas no rotativo estava com mais de 90 dias de atraso, recorde da série do Banco Central, iniciada em 2011. Quando dois em cada três reais da carteira estão atrasados, o prejuízo entra no preço de quem usa a linha e paga em dia.

Por isso a queda da Selic chega devagar aos juros do cartão de crédito, e às vezes não chega: em agosto, até o parcelamento da fatura ficou mais caro e foi a 192,1% ao ano.

444,9% ao ano em linguagem de bolso

O número assusta, mas é uma extrapolação: o Banco Central projeta a taxa do mês como se a dívida rolasse por 12 meses. Traduzindo, 444,9% ao ano equivalem a cerca de 15% ao mês, enquanto a Selic de 13,75% ao ano dá pouco mais de 1% ao mês, uma distância de quase 14 vezes.

Imagine R$ 1.000,00 deixados no rotativo: em 30 dias, só de juros, a conta vai para cerca de R$ 1.150,00. Ela não chega aos quase R$ 5.450,00 que a taxa anual sugere porque, pela regra do Conselho Monetário Nacional, (CMN), o rotativo só dura até o vencimento da fatura seguinte. Depois disso, o saldo precisa ser pago ou ir para um parcelamento com condições melhores.

Além disso, desde janeiro de 2024 a Lei nº 14.690/2023 proíbe que juros e encargos do rotativo e do parcelamento passem do valor original da dívida. Quem deve R$ 1.000,00 pode acabar pagando até R$ 2.000,00 no total: o teto barra a bola de neve infinita, mas dobrar uma dívida segue longe de ser barato.

Por isso, no cartão, esperar que o tempo resolva sozinho não funciona: enquanto a dívida fica parada, cada mês soma mais juros à conta.

O que de fato reduz os juros do cartão de crédito que você paga

Três movimentos dependem de você, e não do Copom:

• trocar a dívida por um crédito mais barato, como um empréstimo pessoal, ou levá-la para outro banco pela portabilidade, um direito garantido desde julho de 2024, sempre depois de comparar propostas;
• negociar o parcelamento da fatura com o emissor do cartão: pela Resolução CMN nº 5.112/2023, a renegociação é garantida a qualquer momento, dentro do mesmo teto de juros e encargos;
• comparar o Custo Efetivo Total (CET), que soma juros, tarifas, impostos e seguros e mostra quanto o
crédito custa de verdade.

Na hora de comparar, olhe para o CET, e não só para a parcela: uma parcela menor pode vir de um prazo mais longo ou deixar tarifas e seguros de fora da conta. É o CET que mostra se a troca compensa os juros do cartão de crédito que você já paga.

Os juros do cartão de crédito que importam estão em sua fatura

Um corte de 0,25 ponto na Selic, como o de Setembro, mesmo repassado inteiro, tiraria cerca de R$ 2,50 em um ano de uma dívida de R$ 1.000,00. No rotativo, essa dívida custa perto de R$ 150,00 por mês: esperar o próximo Copom não é estratégia.

Esta semana, abra a fatura no app ou no papel e procure as taxas de juros e o CET do rotativo e do parcelamento, que o Banco Central obriga o emissor a informar ali. Se não encontrar, peça os números à
central do cartão e anote ao lado do valor que você deve. Quando a pergunta muda de “os juros vão cair?” para “quais são os juros do cartão de crédito que eu pago?”, a resposta deixa de depender do jornal e passa a estar nas suas mãos.

O Clube Utua é uma mídia educativa: este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de produto, modalidade ou instituição de crédito. Os valores contidos neste artigo são exemplos ilustrativos, calculados a partir das taxas médias do Banco Central; a taxa da sua fatura pode ser diferente.

Sobre o Autor

Paula Gargiulo
Paula Gargiulo

Jornalista especializado em Jornalismo Digital, com experiência em SEO, redação web, marketing de conteúdo e estratégias de conteúdo baseadas em dados. Ela é responsável pela estratégia editorial, produção de conteúdo e padrões de qualidade da UTUA, garantindo precisão, consistência, clareza e alinhamento com os padrões de comunicação editorial e financeira em todos os materiais publicados. Desde 2020, ela contribuiu com mais de 20.000 peças de conteúdo em mais de 60 países.