05/10/2026
13h41
elular com lance de R$ 300 e conta no papel ao lado, simulando o custo total de um leilão da Receita Federal

Leilão da Receita Federal com PlayStation 5 a partir de R$ 300,00 e iPhone 17 com lance inicial de R$ 600,00 virou manchete na primeira semana de outubro — e o link talvez já tenha chegado ao seu celular por um grupo ou vídeo curto. Ter vontade de aproveitar não é ingenuidade: o leilão oficial existe, é legal e está aberto a qualquer adulto com CPF regular e conta gov.br.

O problema é que o número na tela conta só o começo da história. Nos próximos minutos, você vai aprender a fazer a conta inteira do arremate e a reconhecer o site falso antes de clicar.

Por que R$ 300,00 parece barato demais para recusar

A economia comportamental tem nome para essa sensação: efeito âncora, descrito pelos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman nos anos 1970. O primeiro número que a gente vê vira régua para os outros, e quando a referência é R$ 300,00, um lance de R$ 1.000,00 parece achado — mesmo que a conta final chegue perto do preço de loja, sem garantia nenhuma.

Essa âncora age tanto no leilão da Receita Federal de verdade quanto no golpe que o imita, por isso vale entender os dois lados antes do primeiro lance.

Como funciona o leilão da Receita Federal

Mercadoria apreendida é a que a Receita reteve, em geral por entrar no país de forma irregular, e que depois vai a leilão. O PS5 e os iPhones estão no edital nº 0800100/000013/2026, da Alfândega do Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP): as propostas vão de 5 a 9 de outubro, e a disputa aberta acontece no dia 13, às 10h.

Para participar do leilão da Receita Federal, você entra no e-CAC com a conta gov.br nível prata ou ouro, abre o Sistema de Leilão Eletrônico e escolhe os lotes. No mesmo período das propostas, dá para ver os itens de perto, com visita agendada, o que ajuda a medir o risco de um produto que vem sem garantia.

Na primeira fase, ninguém vê a proposta de ninguém e, em regra, só seguem para a disputa a maior oferta do lote e as que ficaram até 10% abaixo dela. Se menos de três propostas entrarem nessa faixa, avançam as três maiores. Num lote disputado como o do PS5, se alguém propuser R$ 1.000,00 e outros interessados chegarem perto disso, quem ofereceu os R$ 300,00 do lance inicial fica de fora antes mesmo de a sessão começar.

A conta completa do arremate

Em cima do valor arrematado entra o ICMS, imposto estadual pago numa guia separada, emitida no site da Secretaria da Fazenda. Em São Paulo, ele é de 25% para videogames e de 18% para a maioria dos itens, calculado “por dentro”, ou seja, o próprio imposto entra na base de cálculo.

Na prática, o PS5 de R$ 300,00 vira pelo menos R$ 400,00, e o iPhone de R$ 600,00 passa de R$ 730,00. Dependendo do local, ainda pode haver taxa de armazenagem, e a retirada é feita em até 30 dias na unidade onde o lote está guardado, por você ou por alguém com procuração, porque a Receita não faz entrega. O produto vem no estado em que se encontra, sem garantia e sem troca.

Imagine que a disputa leve o PS5 a R$ 1.500,00, por exemplo. Com o ICMS, são R$ 2.000,00, e somando a viagem para buscá-lo — digamos R$ 150,00 —, a conta vai a R$ 2.150,00. Se o mesmo console novo, com garantia, custar R$ 3.000,00 (número ilustrativo), a economia real é de R$ 850,00 e esse é o valor que você aceita como preço do risco de o aparelho não funcionar.

Às vezes compensa, às vezes não: no leilão da Receita Federal, a conta vem antes do lance, nunca depois.

Falso leilão da Receita Federal: os sinais do golpe

Do outro lado da mesma vitrine está o golpe. Em 23 de setembro de 2026, uma operação das polícias civis do Ceará e de São Paulo desarticulou uma quadrilha que mantinha ao menos 13 sites falsos de leilão e movimentou mais de R$ 2,6 milhões, com pagamentos por Pix de bens que nunca chegavam. Desconfie quando aparecer:

  • anúncio em rede social ou mensagem com link para o “leilão”;
  • pedido de Pix, transferência ou “taxa de reserva” para garantir o lote;
  • pressa para fechar “antes que acabe”;
  • endereço parecido com o oficial, com uma letra trocada ou um final diferente.

A regra de ouro cabe numa frase: no leilão da Receita Federal, a entrada é só pelo e-CAC, com conta gov.br nível prata ou ouro, e o lote arrematado é pago só por DARF, a guia federal — nunca por Pix ou transferência. Em abril de 2026, a própria Receita alertou para sites que usam o logotipo do órgão indevidamente.

Nos golpes que já explicamos aqui no Clube Utua, aparece um padrão: o falso gerente e a voz clonada apostavam no medo, enquanto o falso leilão aposta no desejo de levar vantagem — e a guarda baixa justamente quando a notícia parece boa.

Isso é barato ou só parece barato?

Antes de clicar em qualquer link sobre leilão da Receita Federal, feche a mensagem, abra o navegador e digite você mesmo o endereço do órgão para chegar ao e-CAC. Depois, pegue papel e caneta e some quatro linhas: o lance, o ICMS (no videogame em São Paulo, divida o lance por 0,75 e multiplique por 0,25), a ida até o local de retirada e uma reserva para conserto.

Se o PS5 de R$ 300,00 terminar perto dos R$ 2.000,00, ponha esse número ao lado do preço do aparelho novo, com garantia, e decida com a conta inteira na frente. Quando a pergunta muda de “quanto custa o lance?” para “quanto custa tudo?”, a âncora perde a força — e o golpe também.

O Clube Utua é uma mídia educativa: este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de compra, de participação em leilão nem orientação tributária. As datas e regras citadas são as do edital de outubro de 2026, e os valores de disputa, de viagem e de preço de loja usados nas contas. Os valores contidos neste artigo são exemplos hipotéticos: o preço final depende da disputa, da armazenagem e do custo de retirada.

Sobre o Autor

Paula Gargiulo
Paula Gargiulo

Jornalista especializado em Jornalismo Digital, com experiência em SEO, redação web, marketing de conteúdo e estratégias de conteúdo baseadas em dados. Ela é responsável pela estratégia editorial, produção de conteúdo e padrões de qualidade da UTUA, garantindo precisão, consistência, clareza e alinhamento com os padrões de comunicação editorial e financeira em todos os materiais publicados. Desde 2020, ela contribuiu com mais de 20.000 peças de conteúdo em mais de 60 países.