A marcação a mercado é o mecanismo que faz o preço de um título público variar todos os dias, e entender esse movimento ajuda o investidor a tomar decisões mais informadas do que apenas carregar a aplicação até o fim. Em um ciclo de corte da Selic, como o observado ao longo de 2026, quem tem títulos prefixados ou atrelados ao IPCA com vencimentos longos pode ver o valor da aplicação subir antes da data final.
Esse comportamento costuma surpreender quem associa renda fixa a um rendimento sempre estável e previsível. Na prática, o retorno contratado só é garantido para quem mantém o papel até o vencimento. Antes disso, o preço oscila conforme as expectativas do mercado para os juros futuros, e é essa oscilação, capturada pela marcação a mercado, que abre a possibilidade de um ganho de capital ao longo do caminho.
A mecânica da marcação a mercado
A marcação a mercado é a atualização diária do preço de um título com base nas condições atuais de juros. Existe uma relação inversa entre a taxa de juros e o preço do papel: quando a expectativa de juros cai, o preço dos títulos prefixados e IPCA+ tende a subir, e quando essa expectativa sobe, o preço recua.
Essa lógica tem uma explicação simples. Um título prefixado paga uma taxa fixa combinada no momento da compra. Se os juros de mercado caem, aquele papel antigo, que paga uma taxa mais alta, fica mais atraente para outros investidores, e sua cotação sobe. É por isso que a marcação a mercado pode registrar valorização justamente nos períodos de queda de juros, mesmo sem que nada mude no contrato original do título.
Duration: por que alguns títulos reagem mais que outros
Nem todos os títulos reagem da mesma forma a uma mudança nos juros, e o conceito que explica isso é a duration, uma medida do prazo médio em que o investidor recebe o dinheiro aplicado. Quanto maior a duration, maior a sensibilidade do preço a variações na taxa. Por isso um Tesouro Prefixado com vencimento em 2035 oscila bem mais que um com vencimento em 2028 diante da mesma alteração de expectativa.
Há ainda um refinamento chamado convexidade, que descreve como essa sensibilidade não é perfeitamente linear e se ajusta conforme os juros se movem. Para o investidor, a mensagem prática é direta: títulos longos ampliam tanto o potencial de ganho quanto o de perda na marcação a mercado. Conhecer a duration da carteira é um passo importante para dimensionar o risco que se está assumindo.
Realizar o ganho ou carregar até o vencimento?
Diante de uma valorização, surge o dilema central da decisão. Vender o título antecipadamente permite realizar o ganho de capital acumulado pela marcação a mercado, aproveitando o efeito da queda de juros sobre o preço. Manter o papel até o vencimento, por outro lado, entrega a rentabilidade que foi contratada na compra, independentemente das oscilações registradas ao longo do caminho.
É importante lembrar que o movimento é simétrico. Se a curva de juros, que representa as taxas esperadas para diferentes prazos, voltar a subir, o preço dos títulos longos cai. Quem precisar vender nesse momento pode ter perda, e não ganho. Foi o que o mercado sinalizou em parte de 2026, quando as projeções para a Selic no fim do ano foram revisadas para cima, em vez de manter a trajetória de baixa esperada no início do ciclo.
Como estruturar a decisão sobre vender ou manter?
A decisão de realizar o ganho ou seguir com a aplicação depende de alguns critérios objetivos. Entre eles estão o horizonte do objetivo financeiro, a magnitude do ganho já acumulado, a expectativa para a trajetória dos juros e a eventual necessidade de liquidez. A marcação a mercado só se transforma em ganho ou perda real quando há venda antes do vencimento, então, enquanto o título é mantido, a oscilação permanece apenas no papel.
Vale reforçar que projeções de juros são probabilísticas, não garantias, e podem mudar de uma semana para outra conforme novos dados econômicos. Antes de decidir, o investidor precisa conhecer a duration da própria carteira e entender como cada título se comporta diante de mudanças na curva de juros. Este conteúdo tem caráter educativo e não representa recomendação de investimento, servindo para esclarecer como a marcação a mercado influencia o valor das aplicações em renda fixa.