07/10/2026
16h41
trabalhador pagando o almoço com cartão de benefício após as novas regras do vale-refeição

As novas regras do vale-refeição entram na última etapa em novembro, quando o cartão de VR e VA passa a ser aceito em maquininhas de outras operadoras. É o fim da cena do “aqui não passa essa bandeira” no caixa.

Só que a regra muda onde o cartão passa, não o jeito como a gente gasta o saldo. E é aí que costuma escapar dinheiro: no almoço de R$ 55,00 pago sem pensar duas vezes porque “é VR, não conta”. A seguir, você vê o que já mudou, o que muda agora e três contas para fazer antes de novembro.

O que as novas regras do vale-refeição mudam em novembro

O Decreto nº 12.712, de novembro de 2025, reformulou o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) e deu 360 dias para as empresas de benefícios garantirem a interoperabilidade. O prazo vence no início de novembro de 2026, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Na prática, as operadoras passam a compartilhar a rede credenciada, e o seu cartão de VA ou VR poderá passar em maquininhas de outras empresas.

Há duas ressalvas. O estabelecimento precisa estar habilitado a aceitar o benefício, e a finalidade não muda: o VR continua sendo para refeições prontas e o VA, para alimentos. Outras partes das novas regras do vale-refeição já valem desde fevereiro, como o teto de 3,6% na taxa cobrada do comércio e o repasse aos lojistas em até 15 dias.

As grandes operadoras tentaram barrar o decreto na Justiça, mas as liminares foram derrubadas no TRF-3 e, em setembro, o STF recusou analisar a ação da associação do setor. Já a portabilidade, que permitiria trocar de operadora por conta própria, ficou fora do decreto e segue sem data.

Por que o VR parece dinheiro de brinquedo

O economista Richard Thaler, Nobel de Economia em 2017, chamou de contabilidade mental o hábito de separar o dinheiro em “potes” com regras próprias. O salário fica no pote sério, que paga aluguel e boleto. O saldo do benefício vai para o pote do “pode gastar”.

Em estudo publicado em 2018 na American Economic Review, Justine Hastings e Jesse Shapiro mediram esse efeito. Famílias americanas gastavam de 50 a 60 centavos de cada dólar do vale- alimentação do governo em comida, contra cerca de 10 centavos por dólar de renda em dinheiro. E isso valia mesmo quando o benefício era menor que a conta do mercado, ou seja, quando ele deveria funcionar igual a dinheiro.

No dia a dia, é o VR “que não conta” bancando o almoço caro e a sobra do VA virando chocolate importado, enquanto o salário paga a feira inteira. Isso acontece até com quem controla bem a conta: a planilha é impecável, mas o benefício fica de fora, e com ele some boa parte do gasto real com comida.

 3 contas para fazer antes de novembro

Conta 1: quanto do mercado o VA paga. Some o VA e o VR à renda do mês e decida, antes de olhar o salário, quais gastos de comida o benefício cobre. Se o mercado da casa custa R$ 1.000,00 e o VA é de R$ 700,00, o salário deveria pagar só os R$ 300,00 restantes. Se o extrato mostra mais do que isso saindo do salário, a diferença está escapando, em geral para compras feitas com o VA “porque sobrou”.

Conta 2: quanto o almoço passa do VR. Com R$ 40,00 por dia útil, o VR soma R$ 880,00 em 22 dias. Um almoço diário de R$ 55,00 custa R$ 1.210,00 no mesmo período, e os R$ 330,00 de diferença saem do salário sem aparecer em lugar nenhum.

Conta 3: onde o cartão vai passar. Liste os lugares onde você já compra comida, como a padaria da esquina, o mercadinho do bairro e o restaurante perto do trabalho. A partir de novembro, com as novas regras do vale-refeição valendo por completo, teste o cartão em cada um. Todo lugar novo que aceitar o benefício é um gasto que sai do salário e passa para o VR ou o VA.

Aproveite a chegada das novas regras do vale-refeição para tratar o app do benefício como o do banco, conferindo saldo e extrato com a mesma frequência. E pergunte ao RH se existe regra de expiração de saldo, porque isso depende do contrato da sua empresa com a operadora.

Se o VR fosse parte do salário, eu gastaria assim?

Essa é a pergunta para levar no bolso. Na próxima sexta, quando o garçom trouxer a maquininha, imagine que aquele almoço de R$ 55,00 sairia do salário. Você pediria o mesmo prato? Se a resposta for não, você já sabe de onde vêm os R$ 330,00 da conta 2.

E dá para começar hoje: abra o app do benefício, anote o saldo e, durante o próximo mês, registre os gastos do VA e do VR na mesma lista da conta-corrente. No fim do mês, some tudo o que foi para comida e compare com o que você imaginava gastar. A diferença costuma ser a parte mais reveladora do orçamento. As novas regras do vale-refeição ampliam onde o cartão passa; quanto ele rende continua sendo decisão sua.

O Clube Utua é uma mídia educativa: este conteúdo é informativo e não constitui orientação jurídica nem recomendação sobre operadoras de benefício. Os valores de mercado, VA, VR e almoço são ilustrativos.

Sobre o Autor

Paula Gargiulo
Paula Gargiulo

Jornalista especializado em Jornalismo Digital, com experiência em SEO, redação web, marketing de conteúdo e estratégias de conteúdo baseadas em dados. Ela é responsável pela estratégia editorial, produção de conteúdo e padrões de qualidade da UTUA, garantindo precisão, consistência, clareza e alinhamento com os padrões de comunicação editorial e financeira em todos os materiais publicados. Desde 2020, ela contribuiu com mais de 20.000 peças de conteúdo em mais de 60 países.