08/10/2026
17h09
seguro de vida e sucessão

Enquanto a conta do falecido fica bloqueada e o inventário se arrasta por meses, às vezes anos, a família sem seguro de vida pode ficar sem dinheiro para pagar as contas do dia a dia, principalmente quando a pessoa que se foi era responsável pelas finanças daquele lar.

Falar de seguro de vida e sucessão é delicado, e muitas famílias preferem adiar a conversa. Mas três regras simples, que a gente explica abaixo, mudam o que acontece com quem fica: o dinheiro do seguro não entra no inventário, tem destino definido mesmo quando ninguém foi indicado na apólice e, em regra, não paga imposto.

É aí que seguro de vida e sucessão se separam: quem está indicado como beneficiário na apólice recebe o valor em muito menos tempo. Pela nova lei, a seguradora tem até 30 dias para responder sobre a cobertura, contados da entrega dos documentos, e mais até 30 dias para pagar. Isso acontece porque a lei brasileira garante que esse dinheiro não entra na partilha do inventário nem responde pelas dívidas de quem morreu.

Seguro de vida e sucessão: uma regra própria, separada da herança

O seguro de vida é uma exceção prevista em lei: o capital pago ao beneficiário indicado não integra a herança nem está sujeito às dívidas do segurado, sendo pago diretamente a quem foi indicado na apólice.

Até 10 de dezembro de 2025, essa regra estava no artigo 794 do Código Civil. Desde 11 de dezembro de 2025, vale a Lei nº 15.040/2024 (a nova Lei do Contrato de Seguro), que revogou todo o capítulo de seguros do Código Civil e trouxe um conjunto próprio de regras: o artigo 116 repete o princípio central — o capital segurado devido em razão de morte não é considerado herança para nenhum efeito —, e o artigo 122 torna esse valor impenhorável, protegendo-o também de dívidas do segurado.

A lei não traz regra de transição, e o entendimento que prevalece entre especialistas é que ela vale para contratos firmados ou renovados a partir dessa data. Apólices anteriores seguem as regras antigas, que, nesse ponto, trazem a mesma lógica de proteção.

Quem recebe quando não há beneficiário indicado?

Na ausência de indicação de beneficiário, o capital segurado é pago metade ao cônjuge (se houver) e metade aos demais herdeiros do segurado, seguindo a ordem de sucessão. O artigo 115 da Lei nº 15.040/2024 manteve essa divisão e deixou a regra mais clara.

Pela redação antiga, havia discussão sobre se o cônjuge também entrava na divisão da segunda metade, como herdeiro. A nova lei fala em “demais herdeiros” e separa as duas parcelas. Se o segurado estava separado, ainda que só de fato, a metade do cônjuge vai para o companheiro. E só quando não há beneficiário indicado nem herdeiro o valor vai para quem provar que dependia do segurado para se manter, regra que já existia no Código Civil e continua na lei nova.

É por isso que seguro de vida e sucessão andam juntos no planejamento familiar: o seguro é uma ferramenta mais simples do que parece, útil mesmo para quem não tem um grande patrimônio. Não é só sobre proteger quem fica financeiramente, é sobre dar à família acesso a dinheiro rápido no momento em que mais precisa dele, sem depender do fim de um processo judicial.

Seguro de vida e sucessão: o que acontece com o imposto

Vale separar dois produtos que às vezes se confundem na hora de falar de imposto: o seguro de vida tradicional e os planos de previdência VGBL/PGBL. O seguro de vida puro, por não ser considerado herança, normalmente não é alcançado pelo Imposto de Renda sobre o valor recebido nem pelo ITCMD (Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação).

Já o VGBL e o PGBL, planos de previdência que, na morte do titular, funcionam de forma parecida com um seguro, foram alvo de anos de disputa sobre a cobrança de ITCMD por parte de alguns estados, disputa que o STF encerrou em dezembro de 2024 ao declarar essa cobrança inconstitucional. O Imposto de Renda sobre esses planos segue regras próprias, diferentes das do seguro de vida.

Em janeiro de 2026, a Reforma Tributária (Lei Complementar nº 227/2026) criou normas gerais nacionais para o ITCMD e deixou expresso que o imposto não incide sobre seguro, pecúlio e previdência complementar pagos a beneficiários. Os estados ainda estão ajustando suas leis às novas regras, mas, para o seguro de vida, o cenário segue favorável.

O ponto que quase ninguém revisa depois de contratar

Muita gente contrata um seguro de vida, indica um beneficiário e nunca mais revisa essa escolha. Se a indicação feita na apólice não é atualizada após um casamento, o nascimento de um filho ou uma separação, o valor pode ir para quem a pessoa não escolheria mais hoje — e isso só é descoberto pela família no pior momento possível.

A lei deixa essa escolha livre: dá para indicar cônjuge, filhos, companheiro, um amigo ou mais de uma pessoa, e trocar a indicação depois com um pedido à seguradora. Revisar quem está indicado como beneficiário é tão importante quanto manter a apólice em dia, e vale repetir esse cuidado a cada mudança relevante na vida familiar.

Seguro de vida e sucessão na prática: por onde começar

Muitas pessoas já têm algum seguro de vida básico oferecido pelo próprio emprego e nunca conferiram quem é o beneficiário cadastrado nele, informação que o RH costuma ter. A pergunta mais útil não é “será que vou precisar”, e sim: se algo acontecesse amanhã, quem teria acesso a dinheiro rápido, e quem teria que esperar o fim do inventário?

Olhar para seguro de vida e sucessão como parte do planejamento familiar, e não como um produto para quem tem medo de morrer, é o primeiro passo para decidir com mais clareza se vale a pena contratar uma apólice nova ou revisar a que você já tem.

Sobre o Autor

Emelyn Vasques
Emelyn Vasques

Jornalista, atua há 8 anos nas áreas de assessoria de imprensa, comunicação e produção de conteúdos para diferentes veículos e plataformas. Destaca-se em sua trajetória a experiências como repórter no Jornal Diário do Comércio, especializado na cobertura econômica de Minas Gerais.