O Tesouro IPCA+ voltou ao centro das discussões de alocação em 2026, e não é por acaso. Com a Selic saindo de 15% ao ano em março e o ciclo de cortes em curso, o juro real disponível nesses títulos atingiu patamares raramente vistos na história recente do mercado brasileiro. A pergunta relevante, para quem já investe em renda fixa, não é se o Tesouro IPCA+ é interessante, mas qual prazo faz mais sentido nesse cenário.
Duration é a sensibilidade do preço de um título à variação das taxas de juros. Quanto maior a duration, mais o preço do papel oscila quando os juros se movem. Um título com duration de 10 anos perde muito mais valor se os juros subirem 1% do que um título com duration de 4 anos, e ganha muito mais se os juros caírem na mesma magnitude.
Títulos com duration intermediária, entre 3 e 7 anos, representam um ponto de equilíbrio: capturam boa parte do ganho gerado pela queda dos juros, sem expor o investidor às oscilações mais intensas dos vencimentos longos. Para ter uma referência concreta, um título Tesouro IPCA+ com duration de 5 anos e juro real de 8,5% ao ano, em um cenário de queda de 1,5 ponto percentual nas taxas, pode gerar um ganho adicional de marcação a mercado próximo de 7,5% sobre o valor do título, somado ao carrego contratado.
Por que o Tesouro IPCA+ intermediário se destaca no cenário atual
Três fatores convergem para tornar esse título especialmente relevante em meados de 2026. O primeiro é o nível do juro real. Analistas destacam que taxas reais acima de 7,5% ocorreram em menos de 10% do tempo desde 2011, o que torna o carrego contratado hoje historicamente atrativo, independentemente de qualquer ganho adicional via marcação a mercado.
O segundo fator é a expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic. O Copom iniciou a redução dos juros em março de 2026, após manter a Selic em 15% ao ano de junho de 2025 a março deste ano, o maior nível em quase 20 anos. Conforme os cortes avançam, o preço dos títulos indexados tende a subir, criando potencial de ganho adicional para quem travar a taxa hoje. O terceiro fator é a proteção inflacionária embutida na estrutura do título: o investidor recebe o IPCA do período mais o juro real contratado, o que preserva o poder de compra mesmo se a inflação surpreender para cima.
Como calibrar prazo e tamanho da posição
Para o investidor com horizonte de 3 a 5 anos, os vencimentos entre 2029 e 2031 são os mais discutidos no mercado atual. Antes de definir o percentual da carteira alocado nesse título, três perguntas orientam a decisão: o dinheiro será necessário antes do vencimento? O investidor aceita ver o saldo oscilar no extrato sem vender? E qual parcela da carteira precisa de liquidez em 12 a 24 meses?
O Tesouro IPCA+ não é reserva de emergência. Para a fatia da carteira que pode ser necessária no curto prazo, alternativas como LCI e LCA de prazo mais curto mantêm o dinheiro acessível sem expor o investidor à marcação a mercado. A alocação em IPCA+ intermediário faz mais sentido para o capital que tem destino definido no médio prazo.
O risco que não pode ser ignorado
O entusiasmo com os juros reais elevados não pode obscurecer um ponto fundamental: quem precisar resgatar o título antes do vencimento está sujeito ao preço de mercado do dia, que pode ser menor do que o valor investido. Se os juros não caírem conforme projetado, ou se algum choque externo pressionar as taxas para cima, o preço do título cai no curto prazo.
A pergunta que vale fazer antes de qualquer decisão é direta: se os juros subirem mais 1,5 ponto percentual amanhã, você consegue manter esse título até o vencimento sem precisar resgatar? Quem responde sim com convicção tem acesso a um dos melhores carregos da renda fixa brasileira dos últimos anos. Quem hesita precisa reavaliar o prazo ou o tamanho da posição antes de agir.