Falar em testamento ainda soa estranho para muita gente jovem. A palavra remete a filmes, a pessoas mais velhas, a um assunto distante da vida real de quem está começando a carreira ou ainda organizando as próprias contas. Mas um movimento silencioso vem mudando essa percepção.
O testamento na juventude deixou de ser exceção e começou a aparecer com mais frequência nas conversas sobre dinheiro, futuro e cuidado com a família. Não é sobre pensar no pior cenário. É sobre organizar a vida com calma, do mesmo jeito que se organiza uma reserva de emergência ou um planejamento de aposentadoria.
Neste texto, vamos explicar de forma simples o que significa fazer um testamento na juventude, quais são os tipos que existem no Brasil, quanto custa fazer um e, principalmente, por que o testamento na juventude vem ganhando espaço entre pessoas que ainda têm muita vida pela frente.
O que é um testamento?
Testamento é um documento em que uma pessoa registra, ainda em vida, como quer que seus bens sejam distribuídos depois da sua morte. Também pode incluir pedidos específicos, como quem cuidará de um animal de estimação, para quem vai um objeto de valor sentimental, ou até detalhes sobre o próprio funeral.
Não existe idade mínima alta para isso: no Brasil, qualquer pessoa maior de 16 anos, em plena capacidade de entender e expressar sua vontade, já pode fazer um testamento. Um ponto importante para desmistificar o assunto: não é preciso ter uma fortuna para justificar um testamento na juventude.
Quem tem um carro financiado, uma poupança, um investimento pequeno, um imóvel dividido com o parceiro ou até só contas e perfis digitais já tem motivos razoáveis para colocar os desejos no papel. O testamento existe para dar clareza, não para impressionar ninguém.
Por que o testamento na juventude está em alta no Brasil?
Os cartórios de notas do país registraram números recordes de testamentos em 2025, com crescimento de cerca de 21% em cinco anos. O movimento ainda é liderado por pessoas acima de 50 anos, mas o público mais jovem cresce dentro dessa estatística, e o comportamento chama atenção de tabeliães e advogados especializados em planejamento sucessório.
Existem explicações bem concretas para esse avanço do testamento na juventude. A primeira é cultural: depois da pandemia, muita gente passou a encarar a própria mortalidade e o cuidado com a família de um jeito mais prático, menos evitado.
A segunda é o aumento da diversidade dos arranjos familiares — pessoas que casam mais de uma vez, têm filhos de relações diferentes, moram sozinhas ou dividem patrimônio com companheiros sem casamento formal. Nesses casos, um testamento evita brigas e mal-entendidos que podem se arrastar por anos na Justiça.
Patrimônio digital
Há ainda um fator bem atual que impulsiona o testamento na juventude: o patrimônio digital. Perfis em redes sociais, contas de e-mail, moedas digitais, monetização de conteúdo e até senhas de aplicativos financeiros fazem parte da vida de qualquer pessoa hoje, especialmente da geração mais jovem.
Sem um planejamento claro, a família pode enfrentar burocracia enorme para acessar ou encerrar essas contas. Por isso, falar de testamento na juventude também é falar de organizar essa parte menos óbvia da vida financeira.
Tipos de testamento que existem no Brasil
O Brasil reconhece três modalidades principais, e vale conhecer as diferenças antes de escolher qual faz mais sentido. O testamento público é redigido e registrado em cartório de notas, na presença de um tabelião e de duas testemunhas.
É considerado o mais formal e o mais seguro, porque fica arquivado oficialmente. Mesmo assim, seu conteúdo é sigiloso, conhecido apenas pelo testador, pelo tabelião e pelas testemunhas.
O testamento cerrado, ou fechado, é escrito pela própria pessoa, ou por alguém a seu pedido, e depois lacrado por um tabelião diante de testemunhas. Ninguém, nem o tabelião, sabe o conteúdo até a abertura, que só acontece após o falecimento.
Já o testamento particular pode ser digitado no computador, mas precisa ser assinado à mão e contar com testemunhas presentes no momento. É a opção mais simples e barata na hora de fazer, mas pode exigir confirmação judicial depois, o que gera custos e tempo extra para a família.
Quanto custa fazer um testamento?
Esse é um dos motivos que mais afasta os jovens da ideia, mas o custo costuma ser bem mais acessível do que se imagina. O testamento público, por exemplo, tem valor de cartório que varia de estado para estado. Em Minas Gerais, o custo médio fica entre R$ 800,00 e R$ 1.500,00, enquanto em outros estados o valor tende a ser diferente.
O testamento cerrado costuma variar entre R$ 500,00 e R$ 2.500,00, também dependendo da unidade da federação. Já o testamento particular não tem custo de cartório na hora de ser feito, mas pode gerar despesas judiciais futuras para ser validado, o que reduz um pouco a economia inicial.
É importante lembrar que esses valores podem mudar conforme o estado e o cartório escolhido, já que cada unidade da federação tem sua própria tabela de emolumentos. Antes de decidir, vale consultar o cartório de notas mais próximo ou um advogado de confiança para confirmar valores atualizados na sua região.
Testamento na juventude e organização financeira
O testamento na juventude raramente aparece sozinho. Ele costuma vir acompanhado de outras ferramentas de organização financeira, como o seguro de vida, que garante uma quantia para a família em caso de falecimento, e a previdência privada, que também pode ser usada como forma de transferência de patrimônio. Famílias com negócios próprios têm buscado ainda estruturas como a holding familiar, pensada para organizar bens e evitar disputas entre herdeiros.
Outro fator que ajuda a explicar essa mudança de comportamento é a própria educação financeira. Criadores de conteúdo que falam sobre dinheiro de forma simples e direta têm colocado o tema no radar de quem nunca parou para pensar nisso. Ao ver alguém da mesma geração falando sobre testamento sem drama, muita gente jovem percebe que o assunto é mais tranquilo do que parecia.
Testamento não é sobre o fim, é sobre cuidado
Pensar em testamento na juventude não tem a ver com pessimismo. Tem a ver com responsabilidade e com carinho por quem fica. Um documento bem-feito poupa a família de decisões difíceis em um momento já delicado, evita disputas judiciais longas e dá clareza sobre o que realmente importa para você.
Da mesma forma que se pensa em reserva de emergência, em seguro ou em investimentos de longo prazo, vale a pena reservar um tempo para pensar em planejamento sucessório, mesmo sendo jovem e com a vida inteira pela frente.
Você não precisa fazer isso hoje, nem sozinho. Mas conversar com a família sobre o assunto, entender os tipos de testamento disponíveis e pesquisar os custos na sua região já é um primeiro passo de organização financeira. Cuidar do testamento na juventude, com leveza e sem pressa, é também uma forma de cuidar do futuro e de quem você ama. Pense nisso!