Uma proposta de emprego com R$ 1.000,00 a mais no salário parece fácil de aceitar. Só que, depois do INSS e do imposto de renda, esse aumento pode virar pouco mais de R$ 500,00 no bolso, e isso antes de pôr na conta o plano de saúde que talvez fique para trás e as horas a mais no trânsito.
O mercado de trabalho está aquecido, o que costuma trazer mais convites: o desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, segundo o IBGE, e o país chegou a 103,5 milhões de pessoas ocupadas, recorde da série. Por isso vale aprender a comparar antes de responder. A ideia aqui é transformar cada proposta de emprego em reais por mês, para você ver qual das duas vagas paga mais de verdade.
Por que o salário bruto engana
O salário bruto é o número mais visível da proposta, e é natural que a decisão gire em torno dele. Plano de saúde, vale-refeição e tempo de trajeto não vêm com cifrão, então ficam em segundo plano na hora do “sim”.
Na economia comportamental, isso tem nome: viés de saliência. O dado mais chamativo pesa mais do que deveria e o resto quase some da conta. Corrigir dá algum trabalho, mas o caminho é simples: transformar cada item da proposta de emprego em reais por mês.
Como colocar cada proposta de emprego em 4 colunas
Reserve quatro colunas para cada vaga, inclusive a que você já tem. Tudo o que entrar ali precisa virar valor mensal, senão a comparação fica torta.
● Salário líquido: o bruto menos INSS e imposto de renda. É o que cai na conta, não o que está no contrato;
● Benefícios em dinheiro: vale-alimentação ou refeição, plano de saúde (já descontadas a sua mensalidade e a coparticipação), a parte da empresa na previdência e a PLR média dividida por 12;
● Custos que a vaga cria: transporte, almoço fora, roupa de escritório ou, no home office, a luz e a internet que sobem;
● Tempo: horas por semana somando jornada e trajeto. Divida o pacote líquido pelas horas do mês
e você terá o valor real da sua hora.
Quando a proposta de emprego traz aumento, a conta é no líquido
Desde janeiro de 2026, pela Lei 15.270/2025, quem ganha até R$ 5 mil por mês não paga imposto de renda, e quem fica entre R$ 5 mil e R$ 7.350,00 tem um desconto parcial, que diminui conforme o salário sobe. Por isso, um aumento que tira você da faixa isenta rende menos do que parece.
Pense em alguém sem dependentes que ganha R$ 4.800,00. O líquido fica perto de R$ 4.326,00, porque só o INSS é descontado. Uma proposta de R$ 5.800,00 soa como R$ 1.000,00 a mais, mas o líquido vai para cerca de R$ 4.875,00.
A diferença some em dois lugares: o INSS sobe uns R$ 140,00 e o imposto, antes zerado, passa a levar uns R$ 311,00. O ganho real é de R$ 549,00, pouco mais da metade do anunciado. Isso não é motivo para recusar, porque o líquido cresce, mas ajuda a chegar à negociação olhando o número certo.
CLT x PJ: compare o ano, não o mês
Quando a proposta de emprego é PJ, comparar mês com mês distorce tudo. Na CLT, o salário vem com 13º, férias com adicional de um terço e depósito mensal de 8% no FGTS pago pela empresa. Há ainda o seguro-desemprego na demissão sem justa causa, cumpridas as regras.
No PJ, o valor da nota é bruto de verdade. Dele saem impostos, contribuição ao INSS, contador, a reserva para tirar férias sem faturar e um colchão para meses sem contrato. A comparação honesta soma os 12 meses dos dois lados, e cada caso tem números próprios, sem fórmula pronta.
O que não vira número, mas pesa
Algumas coisas não cabem em reais, mas entram na decisão. Dê nota de 1 a 5 a cada vaga em quatro pontos: estabilidade, período de experiência, benefícios de tempo de casa que você perderia e chance de crescimento.
Muitas vezes, o arrependimento de quem troca de vaga não vem do salário, e sim do plano de saúde que ficou mais caro ou do trajeto que dobrou. Se a vaga nova ganha no dinheiro e perde feio nas notas, essa diferença tem preço, e só você sabe quanto vale.
Quanto vale o seu emprego atual em reais?
Antes da próxima conversa com recrutador, a primeira tabela é a da vaga que você já ocupa. Abra o último contracheque e anote seu salário líquido. Some o vale, a parte do plano que a empresa paga e a PLR do ano passado dividida por 12, e depois desconte o transporte e o almoço do mês.
Se o pacote der R$ 5.600,00 para 50 horas semanais com trajeto, a sua hora vale cerca de R$ 26,00. Qualquer proposta de emprego precisa superar esse número no líquido e no tempo, não só no bruto do anúncio. Com o contracheque do lado, essa conta sai em uma noite. E se alguma linha do holerite parecer confusa, o Clube Utua tem outros conteúdos que explicam cada desconto.
O Clube Utua é uma mídia educativa: este conteúdo é informativo, não constitui orientação trabalhista, jurídica ou contábil para casos concretos e não indica empresa, vaga ou regime de contratação.