21/07/2026
18h37
Vício em apostas: a doença silenciosa que já atinge 11 milhões de brasileiros

Em 2025, mais de 25 milhões de brasileiros apostaram em sites regulamentados, e a fatia da população que joga subiu de 15% para 17% em um único ano. Só que não é apenas mais gente apostando: é mais gente perdendo o controle.

Se você aposta e sente que não consegue mais parar, ou percebe isso em alguém próximo, a primeira verdade a guardar é esta: o vício em apostas não é frescura nem falta de vergonha na cara. É uma doença que cresce no país, tem explicação, tem sinais e tem tratamento.

O problema é coletivo, não pessoal

Os números do vício em apostas mostram uma tendência, não uma impressão. Segundo a pesquisa ANBIMA/Datafolha, 11% de quem aposta já é classificado como “jogador problemático” — um ponto a mais que no ano anterior.

Um levantamento da UNIFESP estima que cerca de 11 milhões de brasileiros já usam as apostas de forma arriscada. O acesso ficou rápido demais: os sites legalizados somaram bilhões de visitas e o mercado movimentou dezenas de bilhões de reais em um ano.

Quando um comportamento cresce assim, no ritmo de um app aberto no ônibus, ele deixa de ser sobre caráter e passa a ser sobre desenho. O vício em apostas se espalha porque o produto foi feito para prender.

Por que a aposta “prende”: a mecânica da dopamina

O cérebro tem um sistema de recompensa movido pela dopamina, o mensageiro químico ligado a prazer e motivação. A aposta sequestra esse sistema justamente porque o ganho é imprevisível: às vezes vem, às vezes não.

Essa incerteza libera mais dopamina do que uma recompensa garantida — é o mesmo princípio que faz a pessoa pensar “só mais uma”. Com o tempo, o circuito se acostuma: é preciso apostar mais para sentir o mesmo, e a capacidade de frear vai embora.

Não é fraqueza: o vício em apostas é biologia sendo explorada pela cor da tela, pelo som da vitória e pela facilidade de recarregar em segundos.

Ludopatia: o vício em apostas tem nome e é doença

O vício em apostas tem um nome técnico: ludopatia, ou transtorno do jogo. É uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) — ou seja, não é defeito de caráter nem falta de força de vontade, do mesmo jeito que ninguém escolhe ter depressão.

E ela raramente vem sozinha: costuma andar junto com ansiedade, depressão, uso de álcool e aumento do risco de sofrimento grave. Por isso pedir ajuda não é vergonha, é cuidado com a saúde, igual a procurar médico para qualquer outra doença.

Os sinais de alerta do vício em apostas

Reconhecer cedo muda tudo. Veja os sinais mais comuns, para identificar em você ou em quem você ama:

  • Apostar escondido e mentir sobre quanto gasta ou quanto perdeu.
  • Usar dinheiro de contas, do mercado ou de empréstimos para continuar apostando.
  • Tentar recuperar o prejuízo apostando mais, na esperança de “zerar” a perda.
  • Ficar irritado ou ansioso ao tentar parar ou diminuir.
  • Deixar a aposta competir com o trabalho, o sono e a família.

Se vários desses pontos soam familiares, não é motivo para pânico nem para culpa. É um sinal de que vale a pena procurar apoio — e ele existe, é de graça.

Você não precisa enfrentar isso sozinho

O vício em apostas tem tratamento, e o primeiro passo pode ser gratuito. Os Jogadores Anônimos oferecem grupos de apoio anônimos, com pessoas que passaram pelo mesmo. Os CAPS, Centros de Atenção Psicossocial do SUS, fazem atendimento público de saúde mental na sua cidade.

As próprias plataformas legalizadas são obrigadas a oferecer a autoexclusão, que bloqueia sua conta e corta o acesso. E se a angústia apertar a ponto de você pensar em se machucar, o CVV atende de graça pelo telefone 188, 24 horas por dia. Esses caminhos não substituem um profissional de saúde, mas são um ótimo primeiro passo.

O primeiro passo cabe em um dia

Faça uma conta rápida: se a aposta leva R$300,00 por mês, são R$3.600,00 por ano que deixam de virar prejuízo — dinheiro que pode pagar contas atrasadas ou começar uma reserva, mesmo que com R$50,00 guardados de cada vez.

Mas o passo de hoje não precisa ser sobre dinheiro. Pode ser ativar a autoexclusão no app antes de dormir, contar para uma pessoa de confiança o que você vem escondendo, ou salvar o número 188 no celular.

O vício em apostas é doença, não vergonha — e quem pede ajuda quase sempre já tentou parar sozinho muitas vezes antes. Foi o apoio, não a força de vontade, que virou o jogo. A saída existe, e ela começa com um telefonema. Você não está sozinho!

Sobre o Autor

Paula Gargiulo
Paula Gargiulo

Jornalista especializado em Jornalismo Digital, com experiência em SEO, redação web, marketing de conteúdo e estratégias de conteúdo baseadas em dados. Ela é responsável pela estratégia editorial, produção de conteúdo e padrões de qualidade da UTUA, garantindo precisão, consistência, clareza e alinhamento com os padrões de comunicação editorial e financeira em todos os materiais publicados. Desde 2020, ela contribuiu com mais de 20.000 peças de conteúdo em mais de 60 países.